Obra "Operários", de Tarsila do Amaral, pintada em 1933. (Créditos da imagem: Reprodução).

O dia 15 de maio de 2019 ficou marcado pelos protestos em todo o Brasil, contra os cortes de 30% nas verbas discricionárias das universidades federais, cortes das bolsas de pós-graduação e outros projetos do CAPES e perseguições de caráter ideológico às universidades. Ao final do dia, ao me deparar com imagens, lembrei-me da Semana de Arte Moderna. Antes de entender o porque, devemos entender o que foi a Semana de Arte Moderna e o Modernismo.

O que é o modernismo?

O movimento modernista, progressista, rompia com o tradicionalismo, com o formalismo, com o elitismo. Apesar de suas manifestações serem principalmente artísticas, isso refletia em diversos outros pontos, como político, econômico e social.

Início do século XX. No Brasil, grupos oligárquicos, principalmente rurais, comandavam o país. Na arte e na cultura, as elites sob a influência da estética e do formalismo europeu, como a chamada La Belle Époque, francesa.

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São Paulo, como uma cidade rica e de destaque, era muito nova, e recebia muitos imigrantes, diferente do Rio de Janeiro, já com sua elite tradicional e totalmente europeizada. São Paulo, portanto, com sua crescente industrialização, era sinônimo de progresso, nacionalismo.

É nesse contexto que se inicia o modernismo, buscando uma identidade nacional baseada no progressismo, e não nas amarras da colônia europeia que um dia foi, com a cultura extremamente elitista e importada.

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O marco do Modernismo no Brasil foi a Semana de Arte Moderna, ocorrida em 1922, em São Paulo. Inicialmente pensada pelo empresário Paulo Prado e pelo artista Emiliano Di Cavalcanti, o evento, que possuía o intuito de chocar, reuniu nomes da nova cultura, como Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, etc.

O movimento utilizava um artifício para suas reivindicações: zombava de tudo; ora da burguesia e da europa, ora do Brasil e do próprio modernismo.

E o que isso tem a ver com os protestos pela educação?

Na conotação atual da palavra — utilizada na perseguição às universidades —, a Semana de Arte Moderna se encaixaria na palavra balbúrdia. A educação é sinônimo de progresso; universidades geram progresso de um país.

Algo muito marcante foi uma exposição de Anita Malfatti, em 1917. Monteiro Lobato, representando o pensamento conservador, fez no artigo “Paranóia ou mistificação?”, publicado no mesmo ano, uma ferrenha crítica à artista:

“Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em consequência disso fazem arte pura, guardando os eternos rirmos da vida […]  A outra espécie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos de cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência […]”.

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A crítica foi um dos estopins para a eclosão do movimento. Mesmo assim, Lobato abriu espaço para obras modernistas em sua carreira editorial, e também desejava uma identidade nacional.

A Semana de Arte moderna, liderada por jovens, considerados rebeldes e “balburdiadores” pelas elites conservadoras, trouxe grandes efeitos políticos e sociais, muito além da arte. Havia uma renovação intelectual ocorrendo, uma busca pelo crescimento e progresso do país, e uma valorização da cultura nacional.

No dia 15 de maio de 2019, jovens estudantes e universitários, taxados de “idiotas úteis”, lutam por causas parecidas. A luta pela valorização da educação, para o progresso, em meio à críticas, se assemelha muito ao que foi a Semana de 22. Muitas universidades expuseram ao público seus trabalhos, a fim de mostrar o resultado de tanta “balbúrdia”, enquanto são vaiados e xingados por certos grupos.

O presidente brasileiro disse que “Se você perguntar a fórmula da água, não sabem, não sabem nada. São uns idiotas úteis sendo usados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo das universidades federais no Brasil”, em relação aos manifestantes.

Não há uma relação direta entre esses dois acontecimentos. O primeiro, buscava desconstruir o esteticismo da arte, o segundo luta pela ciência e educação. No entanto, podemos fazer esta extrapolação. A juventude atual que vê na natureza “sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes” se levanta, buscando o progresso. Desta vez, não se expressando apenas pelo ramo artístico, mas utilizando de outras linguagens.

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Referência:

  1. SIMONI, Ana Paula Cavalcanti.Modernismo brasileiro: entre a consagração e a contestação. Acesso em: 16 mai. 2019.
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Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pelo jornalismo científico. Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente faço o ensino médio em uma ETEC e escrevo para o Ciencianautas.

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