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Desde que a transmissão do coronavírus SARS-CoV-2 passou a ser comunitária, muito tem se falado sobre a testagem da população, medida que permite encontrar e isolar quem está infectado, incluindo pessoas assintomáticas que podem atuar como vetores do vírus. No contexto da testagem, termos como “testes RT-PCR” e “testes rápidos” ou “sorológicos” passaram a ser mais comuns aos nossos ouvidos. Entender a diferença entre esses testes, suas limitações, e o momento mais adequado para a aplicação de cada um deles é importante, considerando que resultados falso-negativos podem ocasionar pessoas espalhando o coronavírus, sem conhecer sua real condição.

Há dois tipos básicos de testes sendo utilizados na investigação de casos de Covid-19: os testes de biologia molecular baseados na técnica RT-PCR em tempo real, que visam detectar a presença do material genético do vírus na amostra; e os testes imunológicos, incluindo teste rápido ou sorologia clássica para detecção de anticorpos (resposta do organismo ao vírus), ou de antígenos (fragmentos do vírus).

O teste RT-PCR em tempo real (do inglês “reverse transcription polymerase chain reaction quantitative real time”, que significa “transcrição reversa seguida de reação em cadeia da polimerase em tempo real”) é considerado o padrão-ouro na testagem para Covid-19 de pacientes sintomáticos na fase aguda da infecção. Para realizar esse teste, amostras de secreções são coletadas das vias respiratórias, como nasofaringe e orofaringe, utilizando um “swab” (cotonete de maior tamanho). Então a presença do material genético do novo coronavírus, o qual é do tipo RNA, é investigada. A partir do RNA do vírus é criada uma cadeia complementar de DNA, que será multiplicada, utilizando componentes e condições específicas, para que milhares de cópias desse DNA sejam obtidas. Nas réplicas de DNA, é possível detectar genes específicos do SARS-CoV-2, quando estiverem presentes na amostra.

A RT-PCR é realizada em laboratório e consiste num processo mais demorado em relação aos testes rápidos, porém também é mais confiável e menos provável de resultar em resultados falso-positivos (quando o paciente não está infectado e o teste diz que sim) ou falso-negativos (quando o paciente está infectado e o teste diz que não), desde que a coleta seja feita de maneira adequada e respeitando o estágio da infecção indicado, que, de acordo com o Ministério da Saúde, é entre o 3º e 7º dia da doença, preferencialmente. Após o sétimo dia, a intensidade de resposta do teste começa a diminuir. Portanto, fatores como a condução da coleta da amostra e a quantidade de dias desde a infecção devem ser observados com atenção, uma vez que uma amostra contendo pouco material do paciente, ou coletada em uma fase muito precoce ou tardia da infecção, pode levar a um resultado negativo em um indivíduo infectado. Resultados falso-positivos, por outro lado, são bem menos prováveis de acontecer usando a RT-PCR, uma vez que é muito difícil que um gene do vírus seja detectado pelo teste se ele não estiver ali, a menos que a amostra seja contaminada por uma amostra positiva durante a manipulação.

É importante esclarecer que, como o RT-PCR constata a presença do vírus no organismo, ele não é eficaz para os casos em que a pessoa já foi curada da Covid-19, de modo que outros testes devem ser utilizados para a detecção posterior da doença. Testes imunológicos que realizam a detecção rápida e qualitativa dos anticorpos IgM (imunoglobulina M) e IgG (imunoglobulina G), produzidos pelo organismo após o contato com o coronavírus SARS-CoV-2, vem sendo utilizados neste sentido.

Para os testes que visam a detecção de anticorpos, amostras de sangue total, soro ou plasma humano são obtidas a partir de um furo no dedo ou pela coleta de sangue de uma veia. De acordo com o Ministério da Saúde, a recomendação para o uso desses testes é apenas a partir do 8º dia do início dos sintomas, já que o organismo requer alguns dias a partir do contágio para produzir anticorpos em quantidade suficiente para detecção pelo teste. Antes disso, é provável que alguém receba um resultado negativo, mesmo que tenha a Covid-19. Assim, esses testes são indicados para uma fase mais tardia da infecção, ou mesmo para um período posterior a doença. Estudos apontam que os anticorpos IgM são positivos em 70% dos pacientes sintomáticos com Covid-19 entre o 8º e 14º dias, e em 90% entre o 11º e 24º dias. A presença de IgM contra determinado antígeno indica infecção recente. Enquanto os anticorpos IgG são produzidos em maior quantidade posteriormente, estimando-se que a reatividade atinja 98% após várias semanas, mas ainda não se sabe a duração dessa resposta (BEECHING et al. 2020).

Os anticorpos podem ser detectados por testes rápidos, que têm a vantagem de exibir o resultado em poucos minutos, sem requerer a infraestrutura de um laboratório para a sua aplicação. Segundo a ANVISA, o termo “teste rápido” vem sendo usado popularmente para se referir aos testes imunocromatográficos, que utilizam geração de cor a partir de uma reação entre o antígeno e o anticorpo. No entanto, a maioria dos testes rápidos existentes possuem sensibilidade e especificidade reduzidas em comparação outras metodologias. Em geral, a sensibilidade desses testes foi superior a 85% e a especificidade superior a 94%, de acordo com o Ministério da Saúde, podendo variar entre os fabricantes. Uma baixa sensibilidade do teste diagnóstico pode resultar em uma maior probabilidade de resultados falso-negativos, o que poderia interferir principalmente em casos em que os indivíduos são assintomáticos.

Outras metodologias também podem ser utilizadas para detecção de anticorpos, como ELISA, que se baseia numa reação enzimática; imunoensaio quimioluminescente (CLIA), reação química que torna visível a reação antígeno-anticorpo; e imunofluorescência, que usa fluorescência formada na reação do antígeno com o anticorpo na leitura do resultado. Porém, em todos os casos é preciso respeitar a janela imunológica do organismo, tempo necessário, a partir de uma infecção, para produzir anticorpos que possam ser detectados por exames. Em alguns casos, é necessário esperar até a segunda semana de infecção (BEECHING et al. 2020).

Testes rápidos para a detecção de antígenos do novo coronavírus também estão disponíveis no mercado, embora o Ministério da Saúde do Brasil ainda não disponha desses testes. Apesar de compartilharem com os testes de anticorpos a rapidez para o resultado, os testes rápidos para detecção qualitativa de antígenos detectam fragmentos específicos do vírus, e não anticorpos. Uma outra diferença é que esses testes são realizados usando amostras provenientes da nasofaringe e orofaringe, coletadas com “swab”, assim como nos testes de RT-PCR. Como esse tipo de teste não requer a espera do tempo necessário à produção de anticorpos, ele pode ser útil na fase aguda da doença, podendo ser aplicado quando se iniciam os sintomas. Apesar de auxiliar no diagnóstico inicial em pacientes com sintomas clínicos da infeção por SARS-CoV-2, testes mais acurados, como o RT-PCR, são recomendados.

Referências:

  1. ASCOM/ANVISA. “Testes para Covid-19: perguntas e respostas“. Acesso em: 16 mai. 2020.
  2. BEECHING, Nick J.; FLETCHER, Tom E.; BEADSWORTH, Mike BJ (2020). “Covid-19: testing times“; The BMJ, 2020. Acesso em: 16 mai. 2020.
  3. Ministério da Saúde. “Acurácia dos diagnósticos registrados para COVID-19“. Acesso em: 16 mai. 2020.
  4. Ministério da Saúde. “Guia de Vigilância Epidemiológica: Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional pela Doença pelo Coronavírus 2019“. Acesso em: 16 mai. 2020.
Ana Carla Santos
Rondoniana que cresceu no sertão do Rio Grande do Norte e também sente-se pernambucana. Graduada em Ciências Biológicas, Mestre e Doutora em Biologia de Fungos. Atualmente é pesquisadora de pós-doutorado, desempenhando suas atividades na Universidade Federal de Pernambuco e Universidade Federal do Agreste de Pernambuco. Tem interesse, principalmente, pelas áreas micologia, biologia molecular e genética, ecologia e educação ambiental.