(Créditos da imagem: NeedPix).

Na década de 1990, o médico inglês Andrew Wakefield publicou um estudo onde relacionava a vacinação da tríplice viral com o autismo, e até os dias de hoje alguns levam a sério. Se hoje o mundo enfrenta uma crise de vacinação – com o sarampo como um dos mais afetados -, a culpa é principalmente de Wakefield. Com dados claramente adulterados, o médico sugeria que a tríplice viral causava autismo – mas por trás ele fazia parte de um projeto que pretendia lançar outra vacina. Ou seja, isso tudo tinha a ver com dinheiro. Correlações malucas são perigosíssimas.

Assisti, recentemente, uma palestra ministrada em um evento da Universidade, ministrada pelo Dr. Luiz Almeida, que possui grande experiência com a divulgação científica. Almeida apresentou alguns pontos bastante interessantes, como correlações malucas – mostrando o quão enviesadas podem ser algumas conclusões, e como isso tudo contamina o facilmente o público leigo. 

Autismo

Um dos maiores medos da população no geral é com relação ao autismo – e isso se mostra visível nas proporções que tomaram os estudos fraudados de Wakefield. Outro caso semelhante ocorreu em 2014. A cientista Stephanie Seneff, pesquisadora sênior do Laboratório de Ciência da Computação e Inteligência Artificial do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), uma das mais renomadas instituições de pesquisa e ensino superior nos Estados Unidos e no mundo, apresentou algo bastante questionável.

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Ganhou a internet as supostas “fortes correlações”, entre o autismo e o glifosato. Segundo ela, “no ritmo de hoje, em 2025, uma em cada duas crianças será autista”. Em uma apresentação de slides, a cientista apresentou um gráfico que indicava seu ponto de que herbicidas com glifosato causavam autismo. No entanto, trata-se de uma conclusão extremamente enviesada. Veja o gráfico abaixo:

(Créditos da imagem: Reprodução).
(Créditos da imagem: Reprodução).

Muito convincente, não? Mas então os produtos orgânicos, em um complô com Jim Carrey também causam autismo nas crianças?

(Créditos da imagem: Reprodução).

Mas o que, então, causa essa “epidemia” de autismo? Sim, os diagnósticos de autismo aumentaram, mas devido a diversos efeitos analisados por estudos, sendo o principal deles a melhoria no processo de diagnóstico, feito antes de forma bastante errada.

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Nicolas Cage devia estar preso

Vamos aos fatos. Nicolas Cage afoga pessoas em piscinas – e o gráfico abaixo pode provas isso:

(Créditos da imagem: Reprodução).
(Créditos da imagem: Reprodução).

Claro que trata-se de uma ironia. É mais uma dessas correlações malucas.

Revistas científicas

Ao mesmo tempo que as correlações sem sentido são feitas para enganar a população não ligada à ciência, alguns conseguem enganar até mesmo as revistas científicas. Durante a pandemia, muito disso ocorreu, envolvendo inclusive a hidroxicloroquina – como esse “estudo”, publicado no periódico Asian Journal of Medicine and Health, e que debatia o uso da hidroxicloroquina no combate ao coronavírus visto que o vírus Sars-CoV-2 é mais mortal do que patinetes. No entanto, nesse momentos vamos para um tema menos polêmico para exemplificar o assunto.

“Um buraco negro no centro da Terra desempenha o papel do maior sistema de telecomunicação para conectar DNAs, DNAs escuros e moléculas de água na variedade dimensional 4+N-”. Isto te parece fazer sentido. Acredite ou não, os cientistas o publicaram em uma revista de medicina. Para piorar, o Open Access Macedonian Journal of Medical Sciences é hospedado pelo site do órgão público National Center for Biotechnology Information, dos Estados Unidos. 

Não se sabe o motivo da publicação. É comum que cientistas façam isso para testar a filtragem das revistas e encontrar revistas predatórias. O Popular Mechanics sugere, ainda, que quem escreveu foi uma Inteligência Artificial (não muito inteligente), à pedido de cientistas, que o publicaram também para testar. 

Siri, especialista em física nuclear

Outro exemplo hilário ocorreu com o pesquisador neozelandês Christoph Bartneck. Ele recebeu um convite para ministrar uma palestra em uma Conferência Internacional de Física Atômica e Nuclear. Sem conhecimento na área, Bartneck resolveu recorrer ao que muitos recorrem: à tecnologia. No entanto, não de uma forma muito saudável. 

Ele utilizou o nome de Iris Pear. Note que ‘Iris’ ao contrário é Siri (a assistente da Apple) e que uma pera (pear), se assemelha, de certa forma, a uma maça – a logo da Apple. Bartneck basicamente digitava as palavras ‘atômico’ e ‘nuclear’, e completava as sentenças utilizando as sugestões do teclado, conforme relata ele próprio em seu blog

Ele demonstra seu modus operandi em um vídeo:

É claro que o texto resultante não fez sentido algum. No entanto, para a surpresa de todos, em apenas três horas a organização da conferência o aceitou. Quando um cientista publicar algo, busque escutar o que outros cientistas dizem. Digo para ser cético, e não negacionista. Sim, a Terra é redonda e o aquecimento global existe – como a maior parte da academia concorda.