(Créditos da imagem: Reprodução).

No Brasil, tradicionalmente, predominam os investimentos públicos, por meio de agências de fomento à pesquisa. Famosos pelo mundo pelas “gambiarras” e por produzir muito com pouco dinheiro, os cientistas brasileiros lutaram muito para alcançar a atual estrutura de investimentos e produção científica, que atualmente corre um grande risco. Mas afinal, como nasceu esse “esqueleto”?

Durante o século XIX e a primeira metade do século XX, escassos eram o fomento e as pesquisas científicas no país; até mesmo Getúlio Vargas tentou, frustradamente, criar um Conselho de Pesquisas no Brasil. A pouca ciência que se fazia se concentrava no Rio de Janeiro, e se destacava a área da saúde, como é o caso do famoso Oswaldo Cruz, um dos protagonistas dos episódios que causaram a Revolta da Vacina. São Paulo — símbolo de progresso — começa sua ciência a pleno vapor na década de 1930, por meio da USP.

Faculdade de Saúde Pública, da USP, nos anos 1930. (Créditos da imagem: Reprodução/USP).

A partir dos últimos momentos da Segunda Guerra Mundial, o mundo todo corria para desenvolver pesquisa nuclear, principalmente para fins militares. É nesse contexto em que os cientistas brasileiros se aproveitam, por meio de articulações políticas.

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Apesar da grande notoriedade de São Paulo nos diversos campos da ciência, com grandes nomes lá associados, viu-se a necessidade da criação de um órgão para unir essas ideias, já que não havia espaço para todos na elitista Academia Brasileira de Ciências (ABC). Em 1948, então, foi criada a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), cujo objetivo era melhorar a comunicação entre os cientistas brasileiros. Iniciando suas atividades com 256 cientistas, chegou ao auge no anos 1980, com 16.700 membros.

Em 1949, de olho em São Paulo, que ganhava projeção internacional com suas pesquisas na área da física, cientistas do Rio de Janeiro fundam o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), possibilitado após o físico Leite Lopes procurar e se aliar a Cesar Lattes. Já muito jovem, o físico brasileiro Lattes ostentava uma grande fama mundial no âmbito acadêmico, pois foi o descobridor do méson-pi, em 1947, aos 23 anos de idade — até então essa partícula subatômica existia apenas na teoria.

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Lattes chegou a se demitir da USP para se tornar diretor científico do CBPF. O órgão deu tão certo que em pouco tempo suas instalações iniciais eram insuficientes para suas atividades. Mudaram-se então para o campus da Universidade do Brasil, que outrora resistia às articulações de Leite Lopes.

Cesar Lattes, um dos descobridores da partícula méson pi, é um dos cientistas brasileiros mais importantes da história! (Créditos da imagem: Reprodução).

Nem tudo são flores, entretanto. O CBPF sempre enfrentou problemas financeiros, e Lattes até mesmo o abandonou quando, em 1954, o dinheiro que iria ser utilizado para a construção de um acelerador de partículas foi desviado, e quando iniciou-se a ditadura militar, vários cientistas foram presos e exilados. Em 1976 foi incorporado ao CNPq, e hoje é uma unidade de pesquisa do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCITC).

A criação mais importante da época, todavia, foi talvez o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Criado em 1951, durante o governo de Eurico Gaspar Dutra, foi o órgão que conseguiu, com sucesso, sistematizar a máquina científica do país. O CNPq provou a importância do apoio público à pesquisa científica.

Fotografia da primeira reunião do CNPq. (Créditos da imagem: Reprodução).

Apesar de ter o intuito de financiar a pesquisa básica como um todo, nas diversas áreas do conhecimento, a articulação para criá-lo foi também utilizando como justificativa a pesquisa nuclear, já que estava em alta na época. Isso se deve ao Almirante Álvaro Alberto, militar com formação científica; foi ele que representou o Brasil na Comissão de Energia Atômica da Organização das Nações Unidas.

O projeto do CNPq só funcionou pela continuidade. O Almirante conseguiu transformá-lo em um projeto de Estado, e não de governo, já que obteve, para a fundação o apoio de Dutra e, mais tarde, do sucessor, Getúlio Vargas, que era da oposição de Eurico. Álvaro chamou o CNPq de “Lei Áurea da pesquisa no Brasil”.

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Quando, em 1956, é criada a Comissão Nacional de Energia Nuclear, o CNPq perde grande parte de sua verba, e as maiores mentes do Brasil vão para o exterior. Em 1967, o governo militar cria a Operação Retorno, no intuito de trazê-los de volta; paradoxalmente, entretanto, o próprio governo acaba por expulsar no ano seguinte com o lançamento do AI-5, que instaurou censura e marca o auge da ditadura.

Apesar da instabilidade ao longo da história, o CNPq trouxe, além da própria existência, muitos outros benefícios para o país. Uma das criações que mais se destacam é a plataforma Lattes. Nomeada em homenagem a Cesar Lattes, é um banco de dados de tanto destaque que foi utilizado como exemplo em um artigo na revista Nature (LANE, J. 2010) como “um poderoso exemplo de boas práticas”.

Logotipo da Plataforma Lattes.

Via-se a necessidade de uma plataforma unificada para os cientistas depositarem seus currículos, o que foi possibilitado com a disseminação da internet. Projetos incentivados pelo CNPq ao longo dos anos 1990 possibilitaram, em 1999, a criação da plataforma Lattes. É nesse banco de dados que os milhares de cientistas de todo o país depositam seu currículo, de forma bastante detalhada e completa, permitindo aos pesquisadores visibilidade e às instituições avaliações e comparações.

É tão grande o risco que corre a ciência brasileira que em agosto de 2019, a pró-reitoria da USP chegou ao ponto de lançar um manifesto de apoio ao CNPq, posicionando-se contra sua possível extinção. Diversos outros manifestos e cartas recentes também foram feitos com intuitos parecidos.

Talhada com sangue e suor, a máquina científica do Brasil anda cambaleante pela falta de apoio e de verbas, mas mesmo assim apresenta grandes resultados, muitos dos quais abordamos aqui no Ciencianautas, pois a pesquisa nacional, como sempre, necessita de visibilidade.

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Referências:

  1. ANDRADE, Rodrigo O. “Diálogo Equacionado”; Revista Pesquisa Fapesp. Acesso em: 12 nov. 2019.
  2. CNPq. “A criação”. Acesso em: 12 nov. 2019.
  3. CNPq. “Questão Nuclear”. Acesso em: 12 nov. 2019.
  4. FIORAVANTI, Carlos. “Cientistas Unidos”; Revista Pesquisa Fapesp. Acesso em: 12 nov. 2019
  5. Plataforma Lattes. “Histórico”. Acesso em: 12 nov 2019.
  6. Revista Pesquisa Fapesp. “CNPq: 50 anos de ciência”. Acesso em: 12 nov. 2019.
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Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pelo jornalismo científico. Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente faço o ensino médio em uma ETEC e escrevo para o Ciencianautas.

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