(Créditos da imagem: James JD Sutton/Medium).

Os primeiros dados transmitidos pela Arpanet, precursora da Internet, passaram de um computador da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA, na sigla em inglês), para outro no Instituto de Pesquisa Stanford (SRI, na sigla em inglês), em Palo Alto, em 29 de outubro de 1969.

Naquela noite, a equipe da UCLA telefonou para a equipe do SRI e começou a digitar “LOGIN”.

“Digitamos o L e perguntamos: ‘você conseguiu o L?’”, lembrou o cientista da computação da UCLA, Leonard Kleinrock. “‘Sim!’, respondeu a equipe do SRI. Digitamos o O e perguntamos: ‘você recebeu o O?’ e, novamente, responderam que sim. Digitamos o G e perguntamos: ‘você conseguiu o G?’ Batida! O host do SRI caiu. Assim foi a primeira mensagem que causou a revolução que agora chamamos de Internet.”

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A capacidade das redes de transmitir dados — bem como sua tendência a travar, ou se comportar de maneira imprevisível — sempre fascinou Stephanie Wehner. “Em um único computador, as coisas vão acontecer de forma agradável e sequencial”, disse Wehner, física e cientista da computação da Universidade de Tecnologia de Delft. “Em uma rede, muitas coisas inesperadas podem acontecer.”

Isso é verdade em dois sentidos: os programas nos computadores conectados interferem entre si, com efeitos surpreendentes. E os usuários das redes são criativos. Com a internet, observou Wehner, inicialmente “as pessoas pensavam que a usaríamos para enviar alguns arquivos”.

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Wehner ficou online pela primeira vez em 1992 e na época já era uma hábil programadora de computadores. Ela logo se tornou uma hacker nessa incipiente Internet. Aos 20 anos, ela conseguiu um emprego como “hacker do bem”, eliminando vulnerabilidades de rede em nome de um provedor de Internet. Então ela ficou entediada com hackers e buscou uma compreensão mais profunda da transmissão de informações e redes.

Wehner é agora uma das líderes intelectuais do esforço para criar um novo tipo de Internet a partir do zero. Ela está trabalhando para projetar a “Internet quântica”, uma rede que transmitirá, em vez de bits clássicos com valores de 0 ou 1, bits quânticos nos quais ambas as possibilidades, 0 e 1, coexistem.

Esses “qubits” podem ser feitos de fótons que estão em uma combinação de duas polarizações diferentes. A capacidade de enviar qubits de um lugar para outro através de cabos de fibra óptica pode não transformar a sociedade tão completamente quanto a Internet clássica, mas mais uma vez revolucionaria muitos aspectos da ciência e da cultura, da segurança à computação e à astronomia.

Wehner é a coordenadora da Quantum Internet Alliance, uma iniciativa da União Europeia para construir uma rede de transmissão de informações quânticas em todo o continente. Em um artigo publicado na Science, ela e dois coautores estabeleceram um plano de seis estágios para a realização da Internet quântica, onde cada estágio de desenvolvimento suportará novos algoritmos e aplicativos.

O primeiro estágio já está em andamento, com a construção de uma rede quântica de demonstração que conectará quatro cidades na Holanda — uma espécie de análogo da Arpanet.

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Tracy Northup, membro da Quantum Internet Alliance da Universidade de Innsbruck, elogiou “a amplitude da visão de Stephanie e seu compromisso com a construção do tipo de estruturas em larga escala que farão isso acontecer”.

Depois de hacker, Wehner foi para a Holanda estudar ciência da computação e física. Ela ouviu o teórico da informação quântica John Preskill fazer uma palestra em Leiden descrevendo as vantagens dos bits quânticos para a comunicação. Alguns anos mais tarde, depois de obter seu doutorado, deixou para trás os bits clássicos e ingressou no grupo de Preskill no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) já com o pós-doutorado.

Na Caltech, além de provar vários teoremas notáveis ​​sobre informações quânticas, criptografia quântica e a natureza da própria mecânica quântica, Wehner emergiu como “uma líder natural”, disse Preskill, que “costumava ser a cola que unia as pessoas”, depois de um cargo de professora em Cingapura, ela se mudou para Delft, onde começou a colaborar com experimentalistas para estabelecer as bases para a internet quântica.

Os pesquisadores não pretendem substituir a internet que temos hoje, mas sim adicionar funcionalidades novas e especiais. Existem todos os tipos de aplicações de redes quânticas que serão descobertas no futuro. [Quanta Magazine].

NOTA:

  1. Em uma entrevista concedida à Quanta Magazine, Wehner explicou detalhadamente as ideias por trás do projeto. Para ler a entrevista em inglês, clique aqui. 
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Giovane Almeida
Sou baiano, tenho 18 anos e sou fascinado pelo Cosmos. Atualmente trabalho com a divulgação científica na internet — principalmente no Ciencianautas, projeto em que eu mesmo fundei aos 15 anos de idade —, com ênfase na astronomia e biologia.

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