Tomografias de cérebros de porcos irrigados com a substância desenvolvida pelos cientistas. (Créditos da imagem: Nature).

Marcel Hartmann | GaúchaZH — Quando termina a vida e começa a morte? Um antigo debate na ciência e na filosofia foi reaceso com a publicação, nesta quarta-feira (17), de um estudo na prestigiada revista científica Nature. Pesquisadores da Universidade de Yale anunciaram uma descoberta importantíssima: quatro horas após porcos serem mortos em um matadouro, os pesquisadores ressuscitaram as células do cérebro dos animais. O achado, que está causando furor na comunidade científica, pode abrir espaço para entender o funcionamento do cérebro — um enigma até hoje — e para reverter consequências de acidente vascular cerebral (AVC).

Os cientistas destacaram que apenas os neurônios voltaram a funcionar, e não o cérebro como um todo. Não houve registro de grande atividade elétrica, necessária para a volta da consciência ou da percepção.

O funcionamento do cérebro de humanos e de outros mamíferos depende da circulação de sangue, que leva oxigênio e alimento para as células gerarem energia. Quando falta sangue na região, os neurônios começam a morrer. O processo letal começa em algumas áreas específicas, mas, como o cérebro é todo conectado, o estrago avança com velocidade, até que a consciência se desligue e o órgão como um todo sofra uma pane geral e irreversível. Essa é a morte do cérebro — e do ser humano.

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Com essa premissa em mente, cerca de quatro horas após 32 porcos terem sido mortos em um matadouro, os cientistas de Yale colocaram os cérebros dos animais “de molho”, por seis horas, em um sangue artificial abastecido com nutrientes. O líquido estava aquecido na temperatura equivalente à do corpo (37º C). O sistema foi nomeado de BrainEx.

Veio a grande surpresa: a morte de alguns neurônios foi freada, vasos sanguíneos do cérebro dos porcos voltaram a funcionar e houve até retorno da atividade de sinapses (sinais elétricos que viajam da ponta de um neurônio até a ponta de outro neurônio para enviar informação via eletricidade). Algumas células também passaram a consumir açúcar que vinha do sangue artificial e a produzir dióxido de carbono — sinal de que, em suma, estavam comendo e vivendo. Cérebros que não foram mergulhados no sangue artificial seguiram completamente mortos.

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“Os achados mostram que, com intervenção apropriada, o cérebro de mamíferos retém uma capacidade não prevista de restauração da microcirculação e de certas funções celulares e moleculares horas após o fim da circulação”, escreveram os cientistas no artigo. Conforme Nenad Sestan, um dos autores, “subestimamos a capacidade de restauração celular do cérebro”.

O trabalho não traz consequências imediatas para seres humanos, mas tem grande potencial para o futuro: pode mudar a forma como a ciência descreve o limite entre a vida e a morte: o cérebro está vivo ou morto quando partes dele podem voltar a funcionar? Quando o ser humano pode ser considerado morto?

Ao mesmo tempo, a descoberta dá esperança para pacientes que sofreram AVC, situação na qual o cérebro, ou parte dele, morre pela falta de oxigênio.

Há paradigmas éticos que a descoberta pode suscitar. Em um comentário sobre o estudo, especialistas em bioética destacam que o desenvolvimento da técnica poderia a longo prazo prejudicar a doação de órgãos. Para os transplantes, a maioria dos órgãos são extraídos de doadores em estado de morte cerebral. Se for considerado que este estado é reversível, o que acontecerá com a doação?

Os autores do estudo ainda afirmam que a descoberta pode ajudar a entender melhor como o cérebro degrada após a morte, o que ajudaria na preservação do órgão. A curto prazo, no entanto, é impossível pensar em ressuscitar o cérebro.

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Este texto foi originalmente publicado por GaúchaZH. Leia o original aqui.
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