(Créditos da imagem: Grupo Cientistas Engajados).

Quando publicamos algum artigo que envolva qualquer coisa política — como cortes orçamentários — recebemos muita críticas, por sermos um portal de divulgação científica. No entanto, as linhas de diferentes áreas são muito tênues, e a política é uma área que tende a cruzar com todas as outras.

A política envolve absolutamente tudo na sociedade moderna. Tudo. Desde que as primeiras grandes cidades e civilizações surgiram, há seis ou sete milênios, religião, educação, ciência, comércio. Tudo em algum momento passa pela política.

Isso não é algo necessariamente ruim, pelo contrário. Nós, como sociedade, precisamos de algum nível de organização para funcionar de maneira integrada — e a política oferece um ótimo caminho para isso — e não me refiro necessariamente ao Estado, para acalmar os ânimos dos liberais.

São muitos os cientistas que não aceitam esse fato, e um dos principais pontos que podemos notar, é a falta de participação deles na política. Poucos políticos são cientistas. Somente no últimos anos tem havido uma participação maior da comunidade acadêmica, como cidadãos, na política.

É claro que a ciência não é questão de opinião ou interpretação, mas sim a busca por fatos. No entanto, a ciência necessita de alguns pontos: financiamento, aplicação e regras envolvendo a ética.

Desde a Antiguidade até o período Renascentista, a maior parte dos cientistas e artistas eram nobres enriquecidos — como é o caso do Sir. Francis Bacon, um dos pais da ciência moderna — ou, se não fossem abastados, precisavam de algum patrocínio.

Esses patrocinadores eram os mecenas. Os mecenas de hoje em dia são principalmente o Estado, que financiam a ciência com o dinheiro de impostos, e as empresas, que financiam a ciência em busca de capitalizar no futuro. E a busca pelo financiamento, parte essencial de uma pesquisa científica, envolve a política.

A aplicação da ciência é, talvez, a parte mais sensível e conflitante. A eugenia — crença de que os brancos europeus eram a raça superior —, veio de uma interpretação totalmente errada de pesquisas no campo da evolução, por exemplo. E isso gerou monstros como a justificativa para a escravidão de indígenas, africanos e povos asiáticos, além do Nazismo, que também se baseia nessas ideias.

Uma aplicação militar e política da física foram as bombas nucleares, que causaram grandes males para civis inocentes no Japão. Cientistas foram enviesados pela propaganda e pelo espírito da guerra, sem perceberem no momento o que estavam fazendo.

Albert Einstein e Richard Feynman são exemplos de cientistas que, após a explosão das bombas nucleares, se opuseram publicamente contra esse tipo de uso. Muitos são os cientistas ativistas pela paz, ou pela própria ciência.

Ao mesmo tempo, a pesquisa nuclear apresenta diversas aplicações extremamente importantes para o bem, como a produção de energia e a medicina.

Quanto à ética, há uma grande convergência com os assuntos da aplicação. A ciência nazista é um ótimo exemplo para ilustrar esse ponto: eles eram desprovidos de qualquer noção de ética.

Nem precisamos voltar para o passado. Há alguns anos, tornou-se polêmico o cientista chinês que anunciou o nascimento de bebês transgênicos. Diversos experimentos que ocorrem na China seriam impossíveis no ocidente por barreiras éticas. 

Tudo isso envolve a política. A ciência vai muito além dos campos lógico e racional. A melhor classificação para esses dois campos é “método científico” — ele sim envolve apenas fatos. 

O desenvolvimento da ciência, ou seja, o método científico, deve ser imparcial, tentar se livrar de quaisquer vieses. Mas como vimos, há campos da ciência em que a política é intrínseca. 

O aquecimento global é um fato. Pesquisas foram feitas com uma gigantesca quantidade de dados, durante décadas por diversos cientistas pelo mundo. Mas há quem negue. Portanto, o método científico já foi realizado. Agora é o momento de realizar as manobras políticas para que o fato seja aceito e atitudes sejam tomadas por civis, governos e empresas.

Ciência e política no Brasil

O Brasil possui uma estrutura acadêmica e científica bastante tímida, se comparado aos países desenvolvidos, que levam os cientistas e a pesquisa científica mais a sério.

No entanto, o que temos foi construído às duras penas, história que já abordamos aqui no Ciencianautas. Os cientistas lutam para fazer muito com o pouco que eles têm de acesso.

Principalmente em um país como o Brasil, onde as condições de uma área tão importante são tão precárias, não faz sentido fazer essa separação entre ciência e política.

Ainda mais que, aqui no Brasil, assim como durante o desenvolvimento de qualquer país em um estágio não muito avançado, os investimentos em inovação são predominantemente de origem governamental — em países desenvolvidos, a iniciativa privada corresponde a uma taxa maior.

Uma recente auditoria da Secretaria de Controle Externo do Desenvolvimento Econômico, atribuída ao Tribunal de Contas da União (TCU), concluiu que a falta de articulação entre instituições científicas e políticas é uma das principais causas pelo baixo desempenho do  Brasil em rankings internacionais de inovação.

É difícil listar os cortes recebidos por órgãos públicos de financiamento de pesquisas e de universidades no últimos anos. Desde 2017, quando a situação começou a piorar, inicia-se o movimento Marcha Pela Ciência.

Nos últimos anos, a vozes têm sido predominantes por manifestos e cartas abertas da elite acadêmica, como pela pró-reitoria da USP, Academia Brasileira de Ciências, ex-ministros da Ciência e Tecnologia. Até mesmo uma tentativa de blindagem no congresso ocorreu recentemente.

Referências:

  1. ANDRADE, Rodrigo de Oliveira; Revista Pesquisa Fapesp. “Estratégias desconectadas”; Revista Pesquisa FAPESP. Acesso em: 11 jun. 2020.
  2. BOYD, Ian, L. “Scientists and politics?”; Science. Acesso em: 11 jun. 2020.
  3. Estadão. “Uma breve história do Mecenato”. Acesso em: 11 jun. 2020.
  4. Scientific American. “Science Has Always Been Inseparable from Politics”. Acesso em: 11 jun. 2020.
  5. SIMÕES, Tiago Rodrigues. “Science and politics: Why science should be a central piece of policy-making”; Nature Ecology and Evolution. Acesso em: 11 jun. 2020
  6. The Verge. “Yes, science is political”. Acesso em: 11 jun. 2020

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Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pela divulgação científica. Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente curso Física na UFScar e escrevo para o Ciencianautas.