(Créditos da imagem: Reprodução).

A Cannabis sativa, que no Brasil tem o popular nome de “maconha”, é usada para fins medicinais desde milhares de anos. Existem vestígios do uso medicinal na China há mais de 4.700 anos, na Índia há 3.000 anos e mesmo no início do século XX era comercializada na Europa para o tratamento de transtornos mentais. Após a década de 30, o uso foi reduzido devido ao pouco conhecimento científico e o não isolamento de seus princípios ativos. Os principais componentes só foram isolados na década de 60 pelo professor Raphael Mechoulam, em Israel. Os que receberam maior destaque foram o delta 9-tetraidrocanabidiol (Δ9-THC) e o canabidiol (CBD).

Apesar de muito popular no Brasil, a Cannabis sativa é um arbusto originário da Ásia que se desenvolve muito bem com climas temperados e tropicais. Pode alcançar a altura de até 5 metros e a feminina se difere da masculina principalmente por ser maior e possuir a maior porcentagem de compostos psicoativos. Nas flores das femininas é produzida uma resina, que possui propriedades entorpecentes e mais de 400 compostos químicos, que é conhecida como popularmente como “haxixe” quando dessecada e comprimida.

O uso recreativo, a droga fumada (maconha), ultrapassa 160 milhões de pessoas no mundo. Este ato leva os canabidioides até o sangue através das paredes dos pulmões e os leva diretamente para o cérebro, distribuindo o Δ9-THC e intensificando o risco do desenvolvimento de câncer de pulmão.

Não é o uso recreativo da Cannabis sativa que interessa ao meio científico para a busca de tratamento para doenças neurológicas. O CBD possui um altíssimo grau de importância para o meio científico por ser o principal componente não psicoativo da planta, diferente do Δ9-THC. Enquanto o Δ9-THC atua gerando euforia, o CBD bloqueia e inibe o senso de humor. O CBD virou alvo de várias pesquisas por suas amplas propriedades farmacológicas, como sua ação analgésica, imunossupressora, ansiolítica e antiepiléptica. Porém é importante ressaltar que ambos possuem propriedades neuroprotetoras e antioxidantes.

Estrutura do THC e do CBD. (Créditos da imagem: Green Relief).

A epilepsia é uma disfunção cerebral caracterizada pela ocorrência periódica e imprevisível de crises convulsivas que causam danos cerebrais principalmente no período de desenvolvimento. Em média, 1% da população é acometida. O controle dessas crises é muito importante, pois ao não ser tratada, a repetição poderá ocorrer em intervalos cada vez mais curtos.

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Os atuais medicamentos antiepilépticos não são capazes de curar, porém são usados para o controle das crises. Hoje são encontrados aproximadamente 25 desses medicamentos, porém em torno de 1/3 dos pacientes apresentam resistência. A resistência farmacológica aos antiepilépticos torna os pacientes portadores de epilepsia refratária ou Farmacorresistente.

A grande quantidade de pessoas com epilepsia refratária deixa evidente a necessidade do desenvolvimento de novos fármacos para o tratamento da epilepsia. Assim seria possível ajudar tanto adultos, quanto crianças e adolescentes, evitando os possíveis danos cerebrais que podem se desenvolver.

O que muitas vezes dificulta as pesquisas com a Cannabis sativa no Brasil são as questões éticas, mesmo com a comprovada ação terapêutica. O grande medo das autoridades em liberar o uso medicamentoso está na geração de uma ocasião que possa ser favorável aos usuários recreativos. A ANVISA autorizou o uso medicinal do CBD por importação para tratamento de epilepsias na infância e adolescência, doenças graves e sem alternativa de medicamentos registrados. A Cannabis sativa in natura não pode ser prescrita, pois a Academia Brasileira de Neurologia (ABN) contraindica totalmente para o tratamento da epilepsia.

O CBD possui amplo potencial terapêutico, porém é necessário que estudos clinicamente comprovados, com um grande número de pacientes, sejam realizados para que a aprovação do uso medicinal como fármaco seja liberada. É necessário também que haja uma descrição completa do perfil químico da droga, quebrando assim as restrições legais do uso de compostos derivados da Cannabis sativa.

Diversos indivíduos com epilepsia refratária sofrem diariamente pelos graves efeitos provenientes das convulsões buscando tratamento nos medicamentos disponíveis. Enquanto as autoridades barram o uso medicinal dos compostos da Cannabis sativa, parte da esperança desses pacientes se desmancha a cada crise, que na visão científica, poderia ser evitada.

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Referências:

  1. Matos, R. L. A.; Spinola, L. A.; Barboza, L. L.; Garcia, D. R.; França, T. C. C.; Affonso, R. S. “O Uso do Canabidiol no Tratamento da Epilepsia“. Revista Virtual de Química, 2017.
  2. Adams, R.; Hunt, M.; Clark, J. H. “Structure of cannabidiol, a product isolated from the marihuana extract of Minnesota wild hemp“. Journal of the American Chemical Society, 1940.
  3. Academia Brasileira de Neurologia. “Canabinoides e seu uso em Neurologia: a posição da ABN“. Boletim ABNews, 2015.
  4. Weber, A. B.; Albert, D. V.; Yin, H.; Held, T. P.; Patel, A. D. “Diagnosis of electrical status epilepticus during slow-wave sleep with 100 seconds of sleep“. Journal of Clinical Neurophysiology, 2017.
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Renê Seabra Oliezer
Biólogo, mestrando em Ciências pelo Departamento de Psicobiologia da FFCLRP/USP. Apaixonado pelos poderes do sistema nervoso. Membro associado ao INeC e SBNEC.

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