(Créditos da imagem: Pixabay).

Você teria coragem de entrar em um avião “auto pilotado” desde a saída do portão de embarque até a chegada no portão de desembarque do destino? Isso pode parecer com roteiros de filmes de ficção científica, mas já há quem esteja dando os primeiros passos para que isso se torne uma realidade. Os aviões atuais já funcionam em grande parte no piloto automático durante o voo e com o avanço tecnológico dos últimos anos houve uma redução do número de integrantes na cabine de comando, que hoje são apenas dois. A diferença entre o voo automático e o voo autônomo é de que o este último não necessita do auxílio direto de seres humanos e outras ferramentas externas para executar tarefas e tomar decisões, o avião pode taxiar, decolar e pousar sozinho. Graças ao avanço da inteligência artificial, sensores, câmeras e tecnologia de mapeamento isso está se tornando possível.

A gigante fabricante de aviões Airbus, anunciou que concluiu em 2020, no mês de junho, 500 voos de teste do projeto de táxi, decolagem e pouso autônomos – ATTOL (Autonomous Taxi, Take-Off and Landing) com o seu Airbus A350-1000 XWB. A empresa fez algo inédito com uma aeronave comercial, completando voos visuais (em que há como visualizar e se guiar pelas referências externas ao avião, como solo, lagos, estradas, pista de pouso etc.) automáticos através de tecnologia de reconhecimento de imagens em softwares instalados a bordo. É importante frisar que não foram realizados testes sem a presença de pilotos na cabine de comando.

(Créditos da imagem: Airbus).

Segundo a empresa europeia, foram conduzidos 500 voos, destes, 450 foram feitos apenas para processar dados de vídeo para configurar e ajustar os algoritmos. A gigante da aviação declara que iniciou o programa ATTOL com o objetivo de explorar como as tecnologias autônomas poderiam auxiliar os pilotos a se concentrarem menos nas operações da aeronave e mais na tomada de decisões estratégicas e no gerenciamento de missões. Dessa forma os pilotos continuam (pelo menos por um bom tempo) tendo um papel central na operação de aeronaves.

A fabricante declarou em janeiro de 2020, após os primeiros testes de voo autônomo, que o objetivo do projeto não é de apenas alcançar a autonomia em si, mas principalmente de explorar novas tecnologias. A Airbus pretende inovar em áreas de materiais, sistemas de propulsão alternativa e conectividade. A exploração de novas possibilidades tem o potencial de melhorar o gerenciamento do tráfego aéreo, a possível falta de pilotos devido a grande demanda futura e o aperfeiçoamento de operações, ao mesmo tempo em que aumenta a segurança das aeronaves.

Segundo Arne Stoschek, executiva do Projeto Wayfinder da Airbus, o desafio principal da “auto pilotagem” é como o sistema reage a eventos imprevisíveis. Esse seria o grande passo que diferencia o automático do autônomo. Sébastien Giuliano, líder do Projeto ATTOL, enfatiza que hoje várias aeronaves estão aptas para pousar automaticamente, mas dependem de infraestrutura externa como o Sistema de Pouso por Instrumentos (Instrument Landing System – ILS) ou sinais de GPS. Já o ATTOL tem o objetivo de permitir o funcionamento da aeronave apenas com tecnologias exclusivas a bordo para maximizar a eficiência e reduzir custos de infraestrutura.

Outro ponto fundamental do projeto é ganhar aceitação do público, as pessoas estão acostumadas a terem dois pilotos comandando a aeronave, mas Arne acredita que isso pode mudar com o passar do tempo e compara a mudança ao que aconteceu com os elevadores. Segundo ela, os elevadores comuns costumavam ter operadores dentro deles, mas hoje em dia encontrar alguém operando um elevador pode até causar estranheza. Stoschek afirma que pelo histórico de segurança da Airbus, a empresa está bem posicionada para conduzir essa mudança.

Pelo visto, um avião sem pilotos ainda não é algo possível, pelo menos por enquanto. Há uma extrema complexidade envolvida no desenvolvimento de todo um aparato que permita o avião ter autonomia de taxiar, decolar e pousar sozinho sem auxilio direto de seres humanos. O objetivo atual que já está sendo alcançado é a diminuição da tarefa dos pilotos, fazendo com que haja uma otimização de tempo e energia gastos no comando da aeronave, deixando os tripulantes mais preparados para tomarem decisões importantes para o voo. Os erros humanos são fatores relevantes que aparecem nas causas de acidentes aéreos revelados pelos relatórios finais de investigação, a autonomização pode, se tudo der certo, influenciar diretamente na melhoria desse fator pela tomada de decisão por meio de algoritmos.

Presenciamos nas últimas décadas mudanças impensáveis em períodos anteriores da história. Se hoje a ideia de ter aviões com menos ou nenhuma participação de um ser humano no controle pode parecer um pouco absurda, quem de nós irá afirmar com certeza que isso não será possível um dia? Este é um campo que irá se desenvolver muito nos próximos anos e poderemos acompanhar os seus desdobramentos, provavelmente veremos uma constante evolução na relação homem x máquina. Apesar de não sabermos exatamente aonde iremos chegar, a exploração de novos possibilidades e a perseguição de objetivos ambiciosos podem nos trazer benefícios inimagináveis para diversos campos. Mas em resumo, no momento atual, não! Ainda não teremos aviões sem pilotos.

Referências:

  1. AIRBUS. Airbus concludes ATTOL with fully autonomous flight tests. Acesso em: 01 de ago. de 2020.
  2. AIRBUS. Airbus demonstrates first fully automatic vision-based take-off. Acesso em: 01 de ago. de 2020.
  3. AIRBUS. Is autonomy the future of aerial mobility?. Acesso em: 01 de ago. de 2020.
Ueslei Gama
Apaixonado por música, ciência, aviação e pelo cosmo. Como canta Danni Carlos: "Eu quero ficar perto de tudo que acho certo / Até o dia em que eu mudar de opinião". Psicólogo pela Universidade Federal do Vale do São Francisco e Pós Graduando em ABA para Autismo e Deficiência Intelectual pelo CBI of Miami.