A imagem, feita a partir de um satélite construído e operado pelo Inpe, mostra a Mata Atlântica nos arredores da Grande São Paulo, Santos e Vale do Paraíba. As regiões acinzentadas são cidades ou áreas desmatadas. (Créditos da imagem: Coordenação-Geral de Observação da Terra/INPE).

A Mata Atlântica é um bioma muito grande. Sua faixa vai desde o Sul do Brasil até o nordeste, principalmente na região litorânea, mas se alonga para o interior em alguns momentos, e chega a abranger parte do Paraguai de da Argentina. Entretanto, ela fica nas regiões mais populosas do país, e foi quase totalmente desmatada, principalmente no século XX. Hoje em dia, restam apenas cerca de 12,4% da área de cobertura vegetal original da floresta, conforme um relatório da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) publicado agora em 2020.

Embora a cobertura da área de vegetação nativa no estado de São Paulo esteja crescendo, o mesmo relatório já citado indica que o desmatamento da Mata Atlântica, entre 2018 e 2019, cresceu em 27,2% em relação ao período entre 2017 e 2018. Antes disso, haviam ocorridos outros picos, seguidos de redução – torçamos para que a tendência continue, e o próximo relatório já constate reduções. Para efeitos de comparação, o período entre 2017 e 2018, o mínimo histórico, houve um desmatamento de 11.399 hectares. No primeiro período monitorado, entre 1985 e 1990, houve um desmatamento de 536.480 hectares na mata Atlântica, o que corresponde a uma média anual dez vezes maior do que as de hoje em dia, 107.296 hectares. É necessário cuidado para que a redução continue.

Na última quinta-feira (23), foi divulgado o Inventário florestal do estado de São Paulo de 2020, que indica que o estado de São Paulo registrou não perda, mas um aumento de 4,9% na área de vegetação nativa, conforme as imagens de satélite utilizadas. Há municípios com quase toda a área vegetal, como Ilhabela, com 94,1% de sua área correspondente à cobertura vegetal. São Caetano do Sul, por sua vez, é o município do estado com a menor cobertura vegetal nativa – apenas 1,6% de sua área total. Não é que o desmatamento acabou, ele continua. Entretanto, apesar de haver o desmatamento, a regeneração das matas já possui uma taxa superior à taxa de desmatamento.

“Este levantamento da realidade florestal do Estado é imprescindível para guiar as políticas públicas de proteção e conservação de nossa biodiversidade, ao mesmo tempo que orienta as ações do licenciamento, da fiscalização e do uso sustentável de nossos ativos naturais pelos proprietários rurais, gestores públicos e sociedade civil”, disse o subsecretário de Meio Ambiente, Eduardo Trani em um comunicado.

(Créditos da imagem: Instituto Florestal de São Paulo)

As áreas com as maiores coberturas vegetais estão concentradas nos litorais, pois o relevo das serras dificultam a habitação e atividades industriais ou agropecuárias. Mesmo assim, quase metade das cidades do estado possuem ao menos 15% de sua área correspondente a cobertura vegetal nativa. Dos que possuem menos, 33,5% possuem entre 10% e 15%. Entre 0% e 10%, encontram-se 20% dos municípios paulistas. Considera-se ideal uma taxa de no mínimo 20% da área total do município correspondente a vegetação. Se o aumento continuar, esse ponto pode um dia voltar a ser realidade.

“O ideal seria uma área verde mínima de 20% em cada município para que a vegetação pudesse prestar serviços ambientais, como regular a temperatura, a umidade e os estoques de água e proteger o espaço urbano contra inundações e deslizamentos de encostas”, diz à Revista Pesquisa Fapesp o físico Marco Aurélio Nalon, coordenador do inventário. Ele é um pesquisador no Instituto Florestal de São Paulo.

A época de maiores taxas de desmatamento foi o período de desenvolvimento do estado. No início do século, o principal produto econômico não só de São Paulo, mas do Brasil, era o café. A partir da década de 1930, a industrialização passou a aumentar no país, com o programa de modernização de Getúlio Vargas. Não sabia-se muito bem os efeitos do desmatamento, e hoje temos essa noção muito bem delineada e apresentada. Nos últimos 50 anos, a cobertura vegetal de São Paulo passou de 17,7% para 22,9% da área total do estado.

O valor mínimo registrado foi de 13,5%, entre os anos de 1990 e 1992. Desde então, a cobertura total, com destaque para a Mata Atlântica, passou a se recuperar, cada vez a uma taxa maior. No entanto, o Cerrado continua a sofrer. Embora esteja com uma área um pouco maior do que a de 2010, ainda está em um valor inferior à década de 1990, e muito mais inferior aos anos 1970. Entre 1971 e 1973, a área do Cerrado no estado de São Paulo era de 1.082.640 hectares. Hoje, o número é quase 5 vezes menor – apenas 239.312 hectares. Em 2000 era de 202.056, e desde então aumentou levemente, mas é uma taxa de recuperação muito pequena. Note que a linha do gráfico abaixo permanece quase reta.

(Créditos da imagem: Revista Pesquisa Fapesp).

Alguns outros estados podem estar passando pelo mesmo fenômeno. No Paraná, as áreas de pastagens sem uso estão tornando-se áreas de agricultura, e não há necessidade de desmatar. As Áreas de Proteção Permanente, que visam proteger nascentes de rios e matas, não estão sendo ocupadas em um nível relevante. Em Santa Catarina, algumas áreas agrícolas já abandonadas estão voltando a se tornar mata, conforme a Revista Pesquisa Fapesp.

Marcos Rosa, coordenador técnico do Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo no Brasil (MapBiomas), diz à revsita que “Mapeamentos desse tipo são essenciais para todo estado que pretende fazer planejamento ambiental e atender às exigências do Código Florestal”.

Devemos lembrar que embora o sudeste esteja apresentando o início de uma tendência de reflorestamento, há outras regiões do país que ainda possuem um desmatamento altíssimo. A Floresta Amazônica, por exemplo, ainda está batendo recordes. O sudeste é a região mais desenvolvida, mas o centro econômico tende a mudar, pelo menos da parte agrícola. Grande parte do desmatamento amazônico ocorre para a criação de pastos e plantações. O Brasil tem recebido críticas e sanções de países europeus pela política ambiental extremamente defeituosa do governo. É possível conciliar desenvolvimento com conservação ambiental, e não precisamos esperar mais 50 anos para que a Amazônia esteja quase totalmente destruída para que uma lenta recuperação se inicie.

O documento oficial do inventário ainda não publicado. As informações estão, ainda somente disponíveis neste mapa, no portal de imprensa da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do estado e na cobertura da Revista Pesquisa Fapesp.

Referências:

  1. FIORAVANTI, Carlos. “Estado de São Paulo registra aumento de 4,9% na área de vegetação nativa”; Revista Pesquisa Fapesp. Acesso em: 24 jul. 2020.
  2. Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente. “Novo inventário florestal do ESP aponta crescimento de 214 mil hectares de vegetação nativa no território paulista”. Acesso em: 24 jul. 2020.
  3. SOS Mata Atlântica, Inpe. “Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica – período 2018-2019”. Acesso em: 24 jul. 2020.