(Créditos da imagem: Reprodução).

Como  já abordado pelo Ciencianautas, o médico inglês Andrew Wakefield, há alguns anos, manipulou dados de um estudo de sua autoria para defender a sua tese de que a vacina tríplice viral causa autismo. Tal irresponsabilidade custou a cassação de sua licença para exercer medicina, e diversos estudos já o desmentiram. No entanto, o boato já havia alcançado proporções irreversíveis.

Reconhecido mundialmente, o Brasil é o país com um dos mais amplos e melhores programas de vacina por todo o globo, por meio de bem sucedidos programas do governo, com destaque para o Programa Nacional de Imunizações (PNI). Diversas doenças já estavam erradicadas há muito tempo no Brasil, como é o caso do Sarampo. Mesmo assim, as fake news estão ruindo essa tradição.

Em outubro, o Ministério da Saúde havia anunciado que atingiu a média da meta de vacinação contra o sarampo, de 95%, em crianças de seis meses a um ano. Entretanto, dos 26 estados — quase metade —, 12, e o distrito federal não atingiram a meta. O Rio de Janeiro foi o estado com o menor índice de cobertura, de apenas 69,24%. Em 2019, até o momento, já são mais de 10 mil casos de sarampo — lembre-se de que nos anos de 2015, 2016 e 2017 não houve nenhum caso da doença no país. Apesar disso, as campanhas do governo estão funcionando, e a cobertura, que caiu de 96%, em 2016 para 83,9% em 2017, já melhorou em 2019. O problema, no entanto, ainda merece grande atenção. 

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E sim, isso tudo começou com aquele médico da introdução.

Uma pesquisa publicada há pouco, feita pelo Ibope, por encomenda da ONG Avaaz e da  Sociedade Brasileira de Imunizações trás resultados assustadores. Por exemplo, 48% dos entrevistados afirmaram que utilizam redes sociais e aplicativos como o WhatsApp como principal fonte de informações sobre vacinas. 

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67% dos entrevistados acreditaram, em pelo menos uma informação falsa sobre vacinas que foram apresentadas, como “há tratamentos alternativos tão eficientes ou mais do que as vacinas tradicionais”, ou “o governo usa a vacinação como método de esterilização forçada da população pobre”. Esta última foi classificada como verdadeira por 14% dos entrevistados, um percentual altíssimo. Apenas 22% afirmou que nenhuma das 10 frases falaciosas era verdadeira.

O estudo também constatou que uma grande parte das fake news do tema que foram disseminadas no Brasil foram traduzidas de sites dos Estados Unidos. Um site intitulado “Natural News”, é responsável, sozinho, por um terço da amostra coletada. Nesses sites, foi notada uma proporção considerável de links para curas falaciosas, o que mostra que há pessoas lucrando com o mercado de fake news anti-vaxx. Um dos maiores portais no Brasil, o site Notícias Naturais, conta com 119 mil seguidores no Facebook e é ligado a uma loja de “produtos naturais”. No momento em que nós, do Ciencianautas tentamos acessar, em 15 de novembro, o site e a página do Facebook haviam sido desativados; um grupo com esse mesmo nome, com dois mil membros, ainda está ativo.

O relatório, além da coleta de dados, apresentou propostas para as redes sociais e para o governo com o fim de neutralizar essas notícias falsas, como a revisão das estratégias de comunicação ao Ministério da Saúde, com foco nos públicos mais vulneráveis a desinformação e etc.

Você pode acessar os resultados com mais detalhes clicando aqui.

Referências:

  1. Avaaz; SBIm. “As Fake News estão nos deixando doentes?”. Acesso em: 15 nov. 2019.
  2. MOURA, Felipe. “Rio é o estado com pior cobertura de vacinação de sarampo, diz Ministério da Saúde”; O Globo. Acesso em: 15 nov. 2019.
  3. Unicef. “30 anos da convenção sobre os direitos da criança – Avanços e desafios para meninas e meninos no Brasil”. Acesso em: 15 nov. 2019.
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Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pelo jornalismo científico. Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente faço o ensino médio em uma ETEC e escrevo para o Ciencianautas.

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