Primeiras imagens dos Corais da Amazônia registradas pelo submarino (Créditos da imagem: Greenpeace).

Em 2017 o Greenpeace comprou uma nova briga: as petroleiras Total, francesa e a BP (British Petroleum), britânica, queriam iniciar explorações de petróleo na bacia da foz do rio Amazonas, e tentavam fazer um projeto para que o Ibama liberasse a exploração. No entanto, além da importância conhecida do maior rio, em volume, do mundo, havia um novo detalhe: em 2016, cientistas descobriram recifes no rio Amazonas. As primeiras descrições foram publicadas na revista Science Advances, no mesmo ano. A exploração provavelmente poluiria a água e mataria o recife.

Mas porque a descoberta aumentou a importância do rio? Recifes são ecossistemas incrivelmente diversos. Há uma gigantesca interdependência entre as espécies animais e vegetais. Existem, com certeza, espécies vivendo no recife e que nem conhecemos. Além disso, essas “construções” ajudam na limpeza da água.

A surpresa do mundo com o anúncio foi grande, pois tal coisa era considerada impossível; e não é nem exclusivamente um argumento pelos interesses das petroleiras; era algo realmente improvável. A baixa luminosidade na área, a água barrenta e outros elementos desacreditavam a ideia. Alguns cientistas argumentaram que o recife já estaria morto e soterrado pela lama, mesmo com evidências como fotos. 

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Francini Filho, cientista que mergulhou na região com um mini submarino chegou a afirmar que “negar a existência dos recifes é como negar o desmatamento da Amazônia”.

Nesse tempo até agora, diversos trabalhos científicos responderam diversas questões em relação ao ecossistema, mostrando cada vez mais que era sim possível e real, como este que respondeu a questão da baixa luminosidade.

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Agora, um estudo publicado  no último dia 23 por cientistas da USP e de outras cinco universidades na revista Scientific Reports resolve a questão de vez. Sim, os recifes são possíveis, existem e eles estão vivos e bem. O Grande Sistema de Recifes do Amazonas (GARS), como é chamado, possui 56 mil km², cerca de 37 vezes o tamanho da cidade de São Paulo. É um grande corredor ecológico entre o Brasil e o Caribe.

O novo trabalho um método de datação por carbono para avaliar se a estrutura estava viva ou se tratava-se de uma relíquia. Não só demonstrou-se que estão vivos, como nota-se um crescimento do recife.

Os recifes correm risco

Os cientistas reiteram que não deve ser chamado de recife de corais, como a campanha do greenpeace nomeou, já que os corais nem são a espécie mais abundante. O slogan “salve os corais da amazônia”, portanto, não está cem por cento correto. O maior perigo, segundo eles, é abrir uma margem para que negacionistas ignorem a existência dos ecossistema.

“Funciona bem para o Greenpeace, mas não ajuda quem faz ciência. O mais importante, nesse caso, não são os corais, mas toda a biodiversidade marinha que esses recifes possibilitam existir ali”, disse ao Jornal USP Michel Mahiques, que liderou o estudo mais recente.

Isso, no entanto, não exclui o fato de que os recifes correm perigo e que a campanha exerce grande importância. Vemos, atualmente, a grande polêmica com o desmatamento na floresta amazônica que toma conta dos debates políticos atuais. Com o histórico brasileiros de falta de preservação ambiental, vide o estado em que a Mata Atlântica se encontra, aumentam ainda mais os riscos.

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A exploração petrolífera na região poderia significar danos irreversíveis aos GARS, além da poluição da água, que é essencial para a vida das pessoas e animais que ali moram. Lembrando também que o rio Amazonas sozinho despeja 20% da água doce que cai no oceano Atlântico

Ao final de 2018, o Greenpeace comemorava que o Ibama havia recusado o pedido de exploração de petróleo na região. Entretanto, a recusa valeu apenas para a Total. A partir de maio de 2019, os ânimos baixaram novamente quando percebeu-se que a British Petroleum não desistiu do plano, e organizações ambientalistas, como WWF e Greenpeace continuam seu ativismo.

O termo “Corais da amazônia” está tecnicamente incorreto, mas talvez seja válido o para de popularizar mais facilmente a nobre causa.

Referências:

  1. ESCOBAR, Herton.Cientistas garantem: recifes da Amazônia existem, e estão vivos; Jornal USP. Acesso em: 27 set. 2019.
  2. MAHIQUES, Michel M, et al. “Insights on the evolution of the living Great Amazon Reef System, equatorial West Atlantic; Scientific Reports, 2019. Acesso em: 27 set. 2019.
  3. MOURA, Rodrigo L. “An extensive reef system at the Amazon River mouth; Science Advances, 2016. Acesso em: 27 set. 2019.
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Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pelo jornalismo científico. Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente faço o ensino médio em uma ETEC e escrevo para o Ciencianautas.

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