(Créditos da imagem: Pixabay).

Ora, você certamente já teve que calcular a intensidade do campo magnético. Ou então a direção e sentido do campo elétrico. Mas você já se perguntou o que É o campo elétrico (ou magnético)?

Vejamos o que os artigo e livros dizem sobre o assunto. Rocha1 diz “o campo é visto como uma espécie de ‘substância eletromagnética’ com uma única estrutura”, enquanto Hewitt2 entende campo como “uma espécie de aura que se estende através do espaço”. Já para Oliveira3 o campo elétrico “pode ser imaginado como um ‘campo de linhas invisíveis’ no qual o centro é a própria carga que o gerou”.

Até aqui então temos 3 diferentes interpretações para campo: substância eletromagnética; uma espécie de aura; campo de linhas invisíveis. Porém, continuemos um pouco mais:

Silva e Krapas4 analisaram diversos livros didáticos de Física e notaram múltiplas atribuições ao termo campo. Por exemplo, campo é região; campo é vetor; campo é alteração do espaço; campo como curvatura do espaço; campo armazena energia; campo interage com partículas, [mediando a interação entre elas]; campo se propaga; campo preenche o espaço.

Ora, dessa forma, será que podemos dizer que o campo é alguma coisa se não temos consenso na comunidade científica? Físicos se atrapalham e não chegam num acordo do que o campo É, apenas o que o campo FAZ (ou permite fazer); isto é, suas propriedades. Numa interpretação pragmática, Serway e Jewett5 preferem “um campo elétrico existe em um ponto se uma partícula de prova carregada colocada em repouso nesse ponto experimentar uma força elétrica”.

Por fim, Edward Purcell, prêmio Nobel de física e autor do livro sobre Eletricidade e Magnetismo adotado no curso de Física em Berkeley diz “talvez você ainda queira perguntar: que é um campo elétrico? É alguma coisa real, ou é meramente o nome de um fator numa equação o qual deve ser multiplicado por alguma outra coisa para dar o valor numérico da força que medimos numa experiência? Duas observações podem ser úteis aqui. Primeira: desde que funciona, não faz diferença. Esta não é uma resposta frívola, mas séria6.

Todo esse problema acontece pois para sabermos se existe um campo – digamos, elétrico, mas poderia ser magnético ou gravitacional – em determinada região do espaço, nós precisamos colocar uma “carga de prova”. Entendeu o problema? Como eu posso dizer que o campo elétrico produzido por uma carga Q1 existia ANTES de eu colocar uma carga Q2 de prova? Essa é uma pergunta bastante dura e que as diferentes respostas refletem diferentes concepções de mundo e o papel do homem na construção da realidade.

Resumo: de um ponto de vista prático, campo é aquilo que ele faz visto que esse é o consenso entre os físicos. De um ponto de vista abstrato, o campo é apenas as suas relações e sua existência ontológica fica a gosto do freguês. Não deixe ninguém te falar o que é o campo! Nem mesmo eu! Imagine-o da forma que mais faça sentido para ti e seja feliz.

Referências:

  1. ROCHA, J. F. M. O conceito de “campo” em sala de aula: uma abordagem histórico-conceitual. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 31, n. 1, p. 1604.1-1604.17, 2009.
  2. HEWITT, P. G. Física conceitual. Porto Alegre: Artmed Editora, 2002.
  3. OLIVEIRA, R. A. L. C. Aprendizagem baseada em problemas e o ensino do conceito de geração de energia elétrica. 2019. 74f. Dissertação (Mestrado Profissional Ensino de Física) Universidade Estadual Paulista.
  4. SILVA, M. C.; KRAPAS, S. Controvérsia ação a distância/ação mediada: abordagens didáticas para o ensino das interações físicas. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 29, n. 3, p. 471-479, 2007.
  5. SERWAY, R. A.; JEWETT, J. W. Princípios de física: vol. 3: eletromagnetismo. Thomson Learning edições. 2004.
  6. PURCELL, E. M. Eletricidade e magnetismo. Curso de Física de Berkeley. Volume 2. São Paulo: Edgard Blucher Ltda.1970.
Daniel Trugillo
De Santos, Mestre em Ensino de Física (PIEC/USP). Além de escrever para o Ciencianautas, escrevo resenhas de livros de física, filosofia, educação, psicologia e afins no instagram (@trugaindica). Também faço parte do grupo de divulgação científica Via Saber. Como hobby gosto de xadrez, paradoxos e memes.