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A Rússia está prestes a registrar sua vacina contra o Sars-CoV-2, o vírus que causa a covid-19. Esse registro deve ocorrer já na semana que vem, e até outubro o país quer iniciar as vacinações da população russa. Será que essa vacina russa é realmente confiável?

A Rússia não é conhecida pela transparência, e Putin conseguiu, há algumas semanas, a autorização para governar a Rússia até 2036. Detalhe: ele está no Kremlin, a sede do governo russo, desde 1999. No total, ele permanecerá no poder por mais tempo do que o próprio Joseph Stalin. Isso é um claro sinal de uma ditadura, e ditaduras não são exatamente confiáveis. 

A vacina que está sendo desenvolvida pela universidade de Oxford, e já está na terceira fase de testes. Outras vacinas promissoras são a CoronaVac da empresa chinesa Sinovac Biotech, a vacina da Moderna, uma empresa americana, e a farmacêutica Pfizer, também dos Estados Unidos. Há centenas de vacinas sendo testadas pelo mundo, muitas das quais já estão na terceira fase de testes.

Embora a China seja também uma ditadura, a Sinovac Biotech, que produz uma das vacinas negociadas pelo Brasil, mais especificamente pelo estado de São Paulo, publica os estudos com os resultados, e o Instituto Butantan, importante instituto brasileiro, a acompanha de perto. Podemos confiar no Butantan, que é um dos principais institutos de saúde pública de todo o mundo.

O que todas essas vacinas mais promissoras têm em comum? Testes. A primeira fase analisa a segurança da vacina em humano, com um número pequeno de pessoas. A segunda, analisa de há resposta imunológica, em um número um pouco maior de pessoas. Nas duas primeiras fases da vacina de Oxford, por exemplo, foram pouco mais de mil pessoas.

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A terceira fase é onde há um estudo mais amplo: a vacina precisa ser funcional em um grande grupo e causar menos efeitos colaterais e menos mortes do que o próprio vírus. A vacina de Oxford, ChAdOx1 nCoV-19, é testada em 50 mil pessoas nessa fase. Das 50 mil, 10% estão no Brasil. Essas pessoas são acompanhadas e, se for segura, pode ser produzida e distribuída. Caso ela seja segura, poderá ser produzida no Brasil, pela Fiocruz. O Butantan produzirá a vacina da Sinovac, caso os estudos demonstrem bons resultados. 

Agora vem o problema com a vacina russa: enquanto as outras vacinas possuem dezenas de estudos abertos, que demonstram os resultados e podem ser falseados, a Rússia não divulgou nenhum dado técnico sobre seus testes, conforme a BBC. Eles anunciaram, em junho, que os teste realizados com pacientes no hospital militar Burdenko, em Moscou, havia tido uma conclusão “bem-sucedida”, sem liberar as provas, entretanto.

Na verdade, estranhamente, o vice-ministro russo da defesa, Ruslan Tsalikov, diz à BBC que ninguém teve efeitos colaterais. Vacinas, entretanto, sempre causam, em algumas pessoas, pelo menos uma dor local, um dor de cabeça ou algo semelhante. É bastante difícil, ou até mesmo impossível, que uma vacina, ou qualquer remédio, não cause nenhum efeito colateral, mesmo que seja leve, em ninguém. 

“No momento da alta, todos os voluntários sem exceção que receberam imunidade contra o coronavírus se sentiram bem. Portanto a primeira vacina doméstica contra a nova infecção por coronavírus está pronta”, diz Tsalikov.

“Em agosto de 2020, planejamos testá-la sob outras condições, ou seja, depois do registro se planeja outro ensaio clínico com 1,6 mil pessoas. Esperamos o lançamento para produção industrial em setembro de 2020”, diz, também à BBC, a vice-primeira-ministra russa, Tatiana Golikova.

Em outubro eles iniciarão a vacinação da população. Inicialmente, serão vacinados profissionais da saúde, professores e outros grupos essenciais que lidam com grandes números de pessoas. Após isso, o restante da população já deve ser vacinado. Se a vacina não está sendo corretamente testada, é como brincar de roleta russa, e pode colocar, irresponsavelmente, a população em risco, causando até mesmo, mais mortes do que o próprio vírus.

Devemos lembrar que, percentualmente, a covid-19 não é uma doença muito mortal. Seu perigo, e o grande número de mortes são causados pela alta taxa de infecção do vírus. Entretanto, as vacinas também serão distribuídas em massa, e poderiam causar um grande número de mortes se não fossem corretamente feita. 

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Vacinas bem feitas são extremamente seguras: um estudo de 2015 identificou, em seu grupo amostral, uma média de apenas 1,31 caso de anafilaxia por milhão (a covid-19 mata 1 cada cem pessoas) de pessoas por diversas vacinas diferentes, e a taxa de mortes é ainda menor, já que não são exclusivamente fatais e, esses efeitos podem ser tratados. Por isso há a importância da transparência, e enquanto a Rússia não liberar os resultados, não se pode dizer que sua vacina é segura.

Há, aparentemente, uma pressa nos russos em serem os primeiros a criar a vacina. Entretanto, a pressa é a inimiga da perfeição. “Os americanos ficaram surpresos quando ouviram o bipe do Sputnik. É o mesmo com esta vacina. A Rússia terá chegado primeiro”, diz o investidor russo Kirill Dmitriev à CNN.

Ao The Moscow Times, um virologista russo, Alexander Chepurnov, levanta dúvidas quanto à vacina do país: “Com algumas doenças – e para o coronavírus, isso já é conhecido – a infecção pode se intensificar com a presença de certos anticorpos. Portanto, deve-se saber quais anticorpos a vacina forma”.

“Até eu ver estudos e publicações científicas que dizem como a vacina foi estudada, qual nível de neutralização é formado, quais doses do vírus ele protege e, o mais importante, se está desenvolvendo a capacidade de aumentar a infecção por anticorpos, é impossível falar sobre a liberação de uma vacina”, completa.

Referências:

  1. BBC. “O que se sabe sobre a vacina da Rússia contra o coronavírus e por que ela desperta dúvidas”. Acesso em: 08 ago. 2020.
  2. BBC. “Coronavírus: vacina de Oxford tem resultado preliminar positivo; conheça 4 outras iniciativas promissoras”. Acesso em: 08 ago. 2020.
  3. G1. “Rússia vai conceder registro para 1ª vacina contra Covid-19 na próxima semana”. Acesso em: 08 ago. 2020.
  4. G1. “Vacina de Oxford para Covid-19 é segura e induz resposta imune, indicam resultados preliminares”. Acesso em: 08 ago. 2020.
  5. MALLAPATY, Smriti. “How deadly is the coronavirus? Scientists are close to an answer”; Nature. Acesso em: 08 ago. 2020.
  6. McNeil, Michael M el al. “Risk of anaphylaxis after vaccination in children and adults”. Allergy and Clinical Immunology, March 2016, Volume 137, Issue 3, Pages 868–878. Acesso em: 08 ago. 2020.
  7. New Scientist. “Everything you need to know about the Oxford coronavirus vaccine”. Acesso em: 08 ago. 2020.
  8. The Moscow Times. “Russian Virologist Questions Safety of Country’s Coronavirus Vaccine”. Acesso em: 08 ago. 2020.