(Créditos da imagem: Pixabay).

Cada fase de nossa sociedade é movida por algum fator. Atualmente, movemo-nos pela inovação. O modelo toyotista de produção nos trouxe um mundo com diversas opções de modelos de produtos.

Este mundo da inovação abriu espaço para novos jogadores. Surgem, principalmente no ramo da tecnologia, as startups.

30% das startups observadas pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços foram à falência.

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Segundo uma pesquisa feita pela Associação Brasileira de Startups (Abstartups), 38,63% das startups brasileiras não tiveram faturamento em 2016. No mesmo período, apenas 5,68% tiveram faturamento acima de 1 milhão de reais.

No Brasil, há pouquíssimo estímulo para empreendedores: 76,22% da renda inicial de startups vem das reservas pessoais dos sócios.

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Para se ter ideia da importância, os principais problemas das grandes empresas atendidas pelas startups são a inovação em produtos e serviços, simplificação de processos, redução de custos, aumento da produtividade, etc. Ou seja, além da ajuda com seu faturamento, os serviços prestados por elas podem auxiliar no impulsionamento da economia, além de deixá-la mais competitiva.

Além disso, os empregos ocupados por máquinas nas linhas de produção são equilibrados com a crescente demanda de mão de obra qualificada pelas novatas (e gigantes) da tecnologia.

O pequeno empreendedor

Paulo Gannam, 36, é um inventor e empreendedor mineiro. Formado em jornalismo e pós-graduado em Dependência Química pelo GREA-HCFMUSP, cria produtos e busca patenteá-los, visando a implementação deles no mercado.

Um de seus produtos é um sistema de comunicação entre veículos, com mensagens pré-gravadas. Para se comunicarem, ambos os veículos precisam ter o equipamento. Um dos protótipos tem custo de 20 dólares a unidade, outro, mais avançado, que incorpora um aplicativo, tem custo de de 9 dólares, segundo o próprio inventor.

O Sistema de Cooperação no Trânsito, como o chamou, transmite mensagens como: “luz de freio queimada”, “pneu murcho”, “porta entreaberta”. Com esse sistema, pode-se melhorar a segurança no trânsito.

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O Ciencianautas conversou com Gannam sobre a área de inovação no Brasil. Confira a entrevista:

  1. Como é inovar no Brasil? É burocrático demais?

— Para obter a patente de duas de minhas invenções esperei e lutei por 7 anos. Há outras inovações cujo pedido de patente ainda se encontra tramitando dentro do INPI (Instituto Nacional de Propriedade Intelectual). Eu diria que, além de burocrático, é custoso demais. Se você teve uma patente deferida, vai ter de pagar por anuidades cujos valores crescem a cada ano. Fora honorários com advogado e outras taxas que o instituto cobra.

Quanto a encontrar investimentos, se para uma startup, composta de equipe qualificada, capaz de estruturar e fazer o negócio crescer, já é difícil, imagine para um inventor independente, pessoa física que precisa encontrar um tipo de investidor ou empresa investidora com perfil raro no Brasil. Ou seja, capaz de investir num produto, convertendo-o em negócio lucrativo, fabricá-lo e comercializá-lo. Quanto a apoio público, os ecossistemas de inovação não encaixam o inventor independente em nenhum programa de aceleração para seus projetos e isso tem como desfecho o engavetamento de muitas patentes que acabam caindo em domínio público, podendo ser exploradas por qualquer um. O inventor não tem sua atividade valorizada, não consegue ganhar dinheiro fruto de seus esforços e muito se frustra.

  1. O que te levou a fazer o que você faz?

— Em 2009, eu era um fanático consumidor de creme de açaí na tigela. Frequentava diversos estabelecimentos, experimentando e analisando a qualidade das mais diversas receitas e combinações. Percebi que a maioria tinha baixa qualidade, continha pedrinhas de gelo, era aguada e pouco cremosa. Indignado, comecei a preparar este produto em casa e usava meus familiares de cobaia para julgarem os resultados.

Depois de uns 6 meses de testes, consegui obter um creme de açaí na tigela com uma consistência dos deuses e saí à procura de um técnico desenvolvedor de máquinas que pudesse me ajudar a criar um equipamento que facilitasse o preparo desse creme obtido com essas experiências manuais caseiras.

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Passei cerca de 1 ano com um técnico tentando desenvolver a engenhoca, mas o máximo que conseguimos era voltar para casa, a cada encontro, com açaí até nas costas de tantas “explosões” produzidas durante os testes com o protótipo. O dinheiro estava acabando, e optei por suspender tudo. Mas o fato foi que colocar a cabeça para pensar e tentar encontrar uma solução para que a máquina funcionasse direito me abriu as portas da criatividade. A partir de então, não parei mais de ter ideias. Vinham em pacote, e, no auge, eu tinha de 15 a 20 ideias por dia de soluções para problemas que eu identificava no dia-a-dia.

  1. Você consegue algum dinheiro com suas invenções?

— Por ora, me encontro fazendo contatos comerciais e em negociação com empresas. Tenho 4 inovações patenteadas (duas com patente deferida, duas com patente solicitada), com protótipo (provas de conceito para demonstração). E procuro empresas investidoras interessadas em realizar uma validação e, se apontada efetiva viabilidade, lançar estes produtos no mercado mediante contrato de licenciamento ou assemelhado.

  1. Já pensou em sair do país para continuar seus trabalhos?

— Já, mas não saio, em parte, porque mantenho outras atividades profissionais que me dão a condição de manter minha vida andando por aqui. Também porque me acostumei a viver em minha cidade, sou meio “da roça”. Mas ainda acredito que, mesmo vivendo no país em que vivo, irei conseguir tornar algum de meus produtos conhecido e comercializado em escala global quando encontrar a pessoa certa na hora certa. A conferir…

  1. Você tem empresa aberta? Caso não, já pensou em abrir?

— Não, porque no meu caso não compensa. Só vai gerar mais despesa. O inventor não fabrica nem comercializa os produtos que ele concebe. Seu foco está em criar e desenvolver novas soluções e as proteger intelectualmente nos institutos competentes. Feito isso, ele precisa ser um bom vendedor e mostrar para o empresariado que seu projeto tem potencial para gerar vários negócios à empresa investidora. É esta empresa que irá implementar todo o marketing e inserir o produto no mercado. Abrir uma empresa faria mais sentido numa hipótese em que já houvesse a iminência de lucro decorrente de alguma invenção. Com isso, valeria a pena formalizar meu trabalho via constituição de empresa.

  1. O que você acha que poderia ser feito para haver mais startups e pessoas como você no Brasil?

— Já há muitas startups e pessoas como eu no Brasil. E, ao que tudo indica, vão continuar crescendo. Segundo recente reportagem publicada na Agência Brasil, há cerca de 62 mil empreendedores e 6 mil startups no país. O número é mais do que o dobro registrado há seis anos, quando o país ainda começava a discutir o modelo e a notar o nascimento deste novo mercado. Em 2012, haviam 2.519 startups cadastradas na Associação Brasileira de Startups. Em 2017, o número saltou para 5.147.

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De todo modo, é necessário conferir maior facilidade de obtenção de recursos para fazer o negócio crescer ou acelerar um produto inventado por uma pessoa física. No acumulado janeiro-julho de 2018, 43% dos pedidos de patente de invenção e 66% dos pedidos de patente de modelo de utilidade foram feitos por pessoas físicas, que podemos categorizar como inventores independentes.

Esses “anônimos” representam o grupo de residentes no Brasil que mais solicita patente no país, sendo o que menos recebe apoio de programas de fomento e aceleração. Esta total falta de apoio impacta em outros números: no mesmo período 86% dos pedidos de averbação de contratos de tecnologia foram apresentados por empresas de médio e grande porte, 12% por MEI, microempresa e EPP e somente 0,7% por pessoas físicas.

  1. Você acha que empreendedorismo e inovação deveriam ser incentivados pelas escolas?

— Sim, e com muita ênfase no despertar da curiosidade para a ciência e a conversão desse conhecimento em negócio. A ciência, a inovação, a tecnologia e o empreendedorismo permitem ao homem alçar voos cada vez mais altos. Nada pode ser mais importante do que isto. Hoje falamos da fome e das doenças que grassam pelo mundo. Tenho a convicção de que um dia não precisaremos comer e não teremos doenças. E depois disso, o que virá? Seremos imortais? Para o conhecimento não há limites, e, para quem sabe empreender, esse conhecimento pode ser sempre compartilhado e beneficiar a todos.

  1. Você tem algo a dizer a quem queira trilhar um caminho como o seu?

— Primeiro, se você for um engenheiro, administrador, ou economista as coisas vão ficar um pouco menos difíceis, porque você já terá uma visão mais voltada para negócios. Caso não tenha tais formações e nem seja gênio nato do empreendedorismo (minha situação), o suor vai ser um pouco maior.

Não saia por aí inventando e patenteando ideias e conceitos só porque você acha suas ideias legais. Cuidado com alguns agentes e advogados de propriedade industrial que dão a entender serem capazes de encontrar um parceiro para seu projeto e fazer de você um “milionário”. Uma parte considerável deles está preocupada somente com os próprios honorários e desempenham um péssimo trabalho de redação de patentes e captação de investidores. Tem gente boa, mas cuidado com os picaretas.

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Antes de qualquer coisa, estude conceitos e leia livros sobre inovação de valor, startup enxuta, estratégias de marketing, planos de negócios e modelos de negócios. E quando for eleger uma ideia para tocar, esgote todas as possibilidades com esta mesma ideia. Isto te mantém com o foco necessário para alavancar um só projeto, ou descartá-lo após a devida análise e testes.

De preferência, tenha pelo menos mais duas pessoas trabalhando com você porque inovar requer conhecimento multidisciplinar que dificilmente você consegue incorporar. Os próprios programas de aceleração de projetos e de investimento não apoiam uma só pessoa, o que para mim é muito ruim. Eles somente apoiam projetos feitos em equipe, com estrutura de negócio, visando a investir numa possível empresa.

Referências:

  1. Abstartups. “O momento da startup brasileira e o futuro do ecossistema de inovação”. Acesso em: 28 set. 2018.
  2. VALENTE, Jonas. “Pesquisa mostra que 30% das startups não conseguem se manter no mercado”; Agência Brasil. Acesso em: 28 set. 2018.
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Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pelo jornalismo científico. Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente faço o ensino médio em uma ETEC e escrevo para o Ciencianautas.

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