(Créditos da imagem: Freepik Premium).

Talvez isso não pareça fazer sentido, mas o zero causou polêmica quando foi apresentado aos europeus. Nem mesmo os Gregos Antigos conheceram o zero como um número, assim como diversos outros povos antigos. Os babilônios, maias e indianos foram os criadores do conceito formal de zero e de símbolos para representar. Hoje, nos parece algo muito natural, mas não é tão natural assim para as civilizações que não eram educadas nessa compreensão. Os chineses, por exemplo, não possuíam um símbolo para o zero – apenas deixavam um espaço em branco quando queriam representá-lo.

A ideia de nada fazia parte da cultura hindu. Daremos o foco aos hindus pois foram quem, junto aos árabes, levaram o zero para o mundo. Pode até mesmo parecer algo bobo, mas o zero foi uma revolução para a matemática, para as ciências e para as engenharias. Imagine quanto progresso alguns povos antigos foram impedidos simplesmente pela falta do zero.

O conceito de nada faz parte das religiões indianas. Não é a toa que meditações e ioga, práticas de origens asiáticas – indianas, principalmente -, possuem grandes relações com o nada, com a difícil arte de se esvaziar a mente. Como a cultura exerce grande influência na forma como aquela determinada sociedade se desenvolve, em algum momento o nada surgiu na matemática. E como todos sabemos, os indianos são ótimos matemáticos.

(Créditos da imagem: Freepik Premium).

Alguns conceitos matemáticos pouco mundanos, como o infinito, também foram desenvolvidos principalmente pelos indianos, embora diversos povos já tenham o conhecido. Os gregos, por exemplo sabiam do conceito de nada, mas eram receosos quando a ele ser ou não um número, ou ser ou não algo racional. A lógica era algo semelhante a ‘se nada é nada, como nada pode ser alguma coisa?’.

O manuscrito Bakhshali é um famoso pergaminho indiano, por conter o uso mais antigo conhecido do zero. Em 2017, à pedido da Biblioteca Bodleiana, pesquisadores da Universidade de Oxford realizaram a datação do pergaminho. Eles descobriram que ele era muito mais antigo do que se pensava – datando do século III ou IV (3 ou 4), 500 anos antes do que se pensava.

Na época, em um comunicado da universidade, Marcus du Sautoy, professor de matemática na Universidade de Oxford, disse: “Hoje temos como certo que o conceito de zero é usado em todo o mundo e é um alicerce fundamental do mundo digital. Mas a criação do zero como um número por si só, que evoluiu a partir do símbolo de ponto de espaço reservado encontrado no manuscrito Bakhshali, foi uma das maiores descobertas na história da matemática.”

“Agora sabemos que foi no século III que os matemáticos da Índia plantaram a semente da ideia que mais tarde se tornaria tão fundamental para o mundo moderno. As descobertas mostram como a matemática tem sido vibrante no subcontinente indiano há séculos.”, explica du Sautoy.

Conforme explica em um artigo na BBC Future a matemática Hannah Fry, professora na University College London, em 1299, zero, assim como todos os outros números arábicos, foi proibido na cidade italiana de Florença (naquela época a Itália não era unificada). Essa proibição ocorreu porque o zero poderia ser facilmente alterado. Você poderia transformar o zero em um número 6 ou 9, por exemplo.

A Europa utilizava os números romanos, na época – os números que utilizamos hoje apenas para marcar séculos. Os arábicos são esses números que utilizamos nos dias de hoje. O numeral romano é muito complexo e pouco eficiente. Pela facilidade, portanto, em algum momento o polêmico conceito de zero, que enfrentava resistência por ir contra alguns ideais cristãos, além dos números arábicos, acabaram sendo aceitos no século XV (15). 

(Créditos da imagem: Freepik Premium).

Grandes nomes da matemática, como Fibonacci e Descartes, que ‘utilizaram e abusaram’ do zero. Lembra do plano cartesiano? Ele não é possível com a lógica dos números romanos. Com os número arábicos, é possível se localizar no espaço através dos eixos, com números positivos e negativos, além da utilização do zero como divisória entre os quadrantes.

Outra grande importância do zero está no cálculo – vulgo, o terror dos graduandos de exatas -, criado de forma simultânea e independente por Isaac Newton e Gottfried Wilhelm Leibniz. Simplesmente, a criação do cálculo não seria possível sem a ideia do zero. E esse ramo da matemática foi essencial para o desenvolvimento da ciência e da engenharia pós Isaac Newton. 

Referências:

  1. FRY, Hannah. “We couldn’t live without ‘zero’ – but we once had to”. BBC Future. Acesso em: 02 ago. 2020.
  2. University of Oxford News and Events. “Earliest recorded use of zero is centuries older than first thought”. Acesso em: 02 ago. 2020.
  3. WARD, Mariellen. “India’s impressive concept about nothing”. BBC Travel. Acesso em: 02 ago. 2020.
  4. Yale. “The History of Zero”. Acesso em: 02 ago. 2020.