Representação clássica de Jesus. (Créditos da imagem: Pixabay).

A Bíblia não contém erros e é completamente inspirada por Deus: esta era uma das premissas adotadas pelos professores e alunos do Instituto Bíblico Moody, escola norte-americana onde o adolescente Bart D. Ehrman estudou. Décadas mais tarde, em seu livro O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Quem mudou a bíblia e por quê (2015), Ehrman, agora escritor e pesquisador, afirma que as palavras do Novo Testamento (NT) são falíveis e demasiadamente humanas. Para quem acreditava na tese da inspiração divina das Escrituras, trata-se de uma mudança “da água pro vinho”, não é? Durante as minhas últimas férias, resolvi reler esse clássico e divulgar por aqui algumas das principais descobertas e reflexões de um dos maiores especialistas em NT.

(Créditos da imagem: Aaron Burden/Unsplash).

A jornada intelectual de Ehrman começou no Moody, pouco depois de ele ter se tornado um cristão “sério”, “renascido”. Lá, ensinaram-lhe algo que passou a incomodá-lo bastante: o NT foi modificado muitas vezes ao longo do tempo, de forma voluntária e involuntária. Pior ainda, nós não possuímos sequer um manuscrito original de toda a Bíblia, e sim cópias de cópias de cópias, as quais são repletas de adulterações que, acreditava o autor, teriam distorcido as palavras inicialmente inspiradas por Deus. A fim de “resgatar” essas palavras, Ehrman estudou grego e hebraico – os idiomas dos manuscritos originais da Bíblia – e dedicou toda a sua pós-graduação à pesquisa das alterações sofridas pelo NT.

Escorregadas de pena

Mas, afinal, como os especialistas descobrem que e por que um texto foi alterado, e como eles conseguem diferenciar variantes textuais originais de variantes, digamos, falsificadas? Em seu livro, Ehrman descreve os rudimentos da crítica textual, que é a ciência encarregada de responder a essas perguntas. Em primeiro lugar, descobrir que um manuscrito foi copiado incorretamente é muito fácil: basta encontrarmos duas ou mais de suas cópias que apresentam trechos diferentes entre si. Em busca disso, o teólogo John Mill examinou dezenas de manuscritos gregos do NT no século XVIII, detectando cerca de 30 mil diferenças entre eles. Hoje em dia, há pesquisadores que estimam a existência de 200, 300 ou mais de 400 mil variantes! Mas esse problema já era notado desde os primórdios do cristianismo. Para ilustrar isso, o autor cita Orígenes, um padre do século III EC:

As diferenças entre os manuscritos se tornaram gritantes, ou pela negligência de algum copista [isto é, a pessoa que copiava a Bíblia, letra por letra] ou pela audácia perversa de outros; ou eles descuidam de verificar o que transcrevem ou, no processo de verificação, acrescentam ou apagam trechos, como mais lhe agrade (p. 62).

Em segundo lugar, Ehrman e outros críticos textuais também estão interessados em descobrir por que os manuscritos do NT eram alterados. Ele menciona dois tipos básicos de causa, e um deles é bastante simples: nós não somos copiadores infalíveis. Você já deve ter tido a experiência de, sem querer, não ter copiado fielmente o que um professor escreveu no quadro. Esse erro pode ter se tratado, por exemplo, de você ter trocado uma letra por outra, de ter escrito uma palavra a mais ou até mesmo de ter “pulado” uma sentença inteira. Por estarem cansados, com sono ou terem se distraído um pouco, é justamente isso o que acontecia com os copistas da Bíblia. Esses erros involuntários foram bem mais frequentes durante os séculos II e III EC, quando as cópias eram feitas predominantemente por amadores. Os problemas foram sendo minimizados à medida que monges e outros escribas profissionais foram assumindo essa função – uma vez que eles eram formalmente treinados para fazer isso –, mas passamos a contar com cópias fiéis dos textos bíblicos apenas a partir da invenção da imprensa, no século XV. A maior parte daqueles milhares e milhares de variantes textuais supracitados decorreu dessas “escorregadas de pena”, e elas normalmente não comprometeram tanto o significado dos textos.

“Melhorando” a história

Por outro lado, o NT também era propositalmente alterado, e isso distorceu muito mais o seu conteúdo. Isso ocorria por vários motivos, tais como harmonizar contradições entre os Evangelhos, evitar possíveis interpretações (supostamente) incorretas de uma passagem e promover uma ideia teológica endossada por um ou mais copistas.

(Créditos da imagem: Pixabay).

Aqui, entra em cena a terceira das principais tarefas do crítico textual: determinar qual de duas ou mais variantes é a mais primitiva, ou seja, qual dos trechos divergentes provavelmente mais se aproxima daqueles originalmente escritos pelos autores do NT. Para isso, os pesquisadores levam em consideração vários tipos de critério, dentre os quais a idade dos manuscritos – quanto mais antigo, melhor –, sua difusão geográfica – quanto mais “espalhado” por diferentes regiões, melhor – e sua coerência textual – quanto mais seu estilo de escrita e vocabulário forem harmônicos, uniformes, melhor. Como cada um desses e de outros critérios é, de forma isolada, falho, o ideal é que eles sejam considerados em conjunto.

Para exemplificar o que já foi descoberto pelos críticos textuais, descreverei três acréscimos tardios sofridos pelo NT. O primeiro deles refere-se à passagem sobre uma mulher que foi pega cometendo adultério, a qual é mencionada apenas no Evangelho de João (8:1-11). Ali, lemos que Jesus foi questionado se eles deveriam apedrejá-la, já que isso é o que prescreve uma das leis de Moisés. Todavia, o nazareno propôs uma solução bastante engenhosa: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela” (Jo 8:7). Enquanto a mulher se livrou daquela condenação, Jesus livrou-se da armadilha de ter que escolher entre apresentar misericórdia – um dos pilares de seus ensinamentos – e obedecer a uma das leis, digamos, “pouco humanizadas” do Antigo Testamento. Esse é um dos relatos mais famosos do NT, mas Ehrman afirma que os especialistas estão convictos de que ele não fazia parte do texto original. Caso você não confie nas palavras dele, veja o que afirmam os editores da minha Bíblia de Estudo Arqueológica NVI (2013):

As evidências indicam que essa história [7.53–8.1] não fazia parte do evangelho original de João. Nenhum texto antigo do NT, seja do Oriente, seja do Ocidente, ou dos pais da igreja primitiva contêm esses versículos. Alguns acreditam que existiam como um registro independente que circulou durante algum tempo e que só mais tarde foi inserido no evangelho de João (p. 1735).

Outro “enxerto” muito interessante é o trecho final do Evangelho de Marcos (16:9-20). Em resumo, relata-se que Jesus, após ter ressuscitado, se encontrou com Maria Madalena e seus onze discípulos; repreendeu quem duvidou de sua ressurreição; afirmou que quem crer e for batizado será salvo; orientou-os a pregar o evangelho; disse que os que cressem seriam capazes de expulsar demônios, falar em novas línguas, pegar em serpentes, beber veneno e curar doentes; e foi elevado ao céu. Contudo, esses doze versículos foram acrescidos posteriormente em cópias do manuscrito original. Em nota, eis o que comentam os editores da minha Bíblia:

Não há certeza se esses versículos [16.9–20] pertencem ao evangelho de Marcos. Eles estão ausentes nos manuscritos mais antigos e importantes, e certas peculiaridades de vocabulário, estilo e conteúdo teológico os distinguem do restante de Marcos […] Depois de um estudo extensivo de todos os manuscritos, muitos estudiosos concluíram que um ou mais escribas escreveram “um final mais apropriado”, usando informações dos outros Evangelhos, a fim de evitar o próprio desconforto e de “preencher os espaços em branco” para as gerações futuras […] Mesmo assim, o livro com o texto até o versículo 20 está incluído no cânon do NT – as Escrituras autorizadas da igreja (p. 1662).

Ehrman diz mais ou menos o mesmo, mas acrescenta que já foram encontrados alguns manuscritos que contém finais alternativos – uma aparente tentativa de se melhorar a conclusão do Evangelho de Marcos. Sem aqueles doze versículos, pareceria que Madalena, Salomé e Maria não contaram para ninguém que o túmulo de Jesus estava vazio – o que seria muito estranho –, e poderia até ficar meio “no ar” se, para o autor desse texto, todos os eventos subsequentes realmente aconteceram – incluindo a aparição de Jesus ressurreto! Assim, mais uma vez, os copistas deram o seu jeitinho.

Finalmente, as controvérsias acerca da natureza de Jesus também parecem ter motivado muitas mudanças do NT. Embora todos estejamos familiarizados com a ideia de que ele era o próprio Deus encarnado, nem todos os cristãos primitivos concordavam com isso. Havia aqueles que criam que Jesus é um ser totalmente divino – sem jamais ter sido homem –, os que diziam que ele se “divinizou” temporariamente – de seu batismo até pouco antes de morrer – e até mesmo os que defendiam a ideia de que ele só existiu como homem – embora tenha sido “adotado” por Deus em razão de seu fiel cumprimento das leis mosaicas. Somando a isso as críticas judaicas e pagãs quanto à alegada divindade do profeta judeu, os copistas teriam tido muitos motivos teológicos para adulterar as Escrituras. Por exemplo, houve mudanças com o aparente propósito de se enfatizar a gravidez sobrenatural de Maria, de se remover referências às emoções “pouco nobres” de Jesus – como a de raiva – e de se consertar suas profecias que acabaram não se cumprindo. Algumas dessas modificações textuais envolveram coisas que outras pessoas disseram sobre Jesus, e a que mais me intrigou veio a ser chamada de “parêntese joanino”. Em 1João (5:7–8), muitas edições da Bíblia contêm mais ou menos o seguinte trecho: “Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um. E três são os que testificam na terra: o Espírito, e a água e o sangue; e estes três concordam num”. Segundo Ehrman, essa é a única passagem do NT que descreve direta e sucintamente a doutrina da Santíssima Trindade – isto é, a ideia de que o Pai, o Filho (ou Jesus, às vezes representado pelos termos “Palavra” e “Verbo”) e o Espírito Santo são três “faces” de um mesmo Deus. Contudo, há evidências de que uma parte desse trecho foi adulterada pelos copistas. Eis o que dizem os versículos 7 e 8 da minha Bíblia: “Há três que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue; e os três são unânimes”. Para onde foi o trecho que menciona o Pai, a Palavra e o Espírito Santo? Em nota, os editores comentam que “essa adição não é encontrada em nenhum manuscrito grego ou tradução do NT anterior ao século XIV” (p. 2030). Portanto, esse é provavelmente um remendo que alguns copistas fizeram a fim de promover a crença deles de que Jesus era Deus.

Sob inspiração humana?

Nada disso quer dizer que tudo o que o NT relata é falso – e é até possível que algumas de suas modificações textuais sejam compostas por relatos mais ou menos verídicos. Por exemplo, em seu livro Jesus existiu ou não? (2014a), Ehrman lista uma série de evidências de que Jesus, enquanto um profeta judeu, realmente propagou mensagens apocalípticas ao povo palestino do século I. Contudo, o autor ressalta que os métodos histórico-críticos são, por princípio, incapazes de atestar a divindade de Jesus ou provar que ele tenha realizado milagres. Esses assuntos sobrenaturais não são da alçada da História e da crítica textual, e sim da Teologia e, é claro, da fé de cada um.

Mas, para Ehrman, saber disso tudo acabou lhe fazendo abraçar o agnosticismo. Diante da perda dos manuscritos originais da Bíblia e das milhares de modificações que carregam suas cópias, ele conclui que isso torna irrelevante a ideia de que o Espírito Santo inspirou os autores que escreveram o NT. Aqui, o autor fala não como um crítico textual, e sim, salvo melhor juízo, como um “livre pensador”. Mas ele vai além:

A única razão para Deus inspirar a Bíblia seria para seu povo ter as suas palavras reais; mas se ele realmente queria que as pessoas tivessem suas palavras reais, certamente poderia ter preservado miraculosamente essas palavras, assim como primeiramente as inspirara milagrosamente. Dadas as circunstâncias de que não preservou as palavras, a conclusão me pareceu inevitável: ele não se deu ao trabalho de inspirá-las (p. 221).

Não gostou muito desse argumento? Considere isto: Uma vez que o NT foi modificado múltiplas vezes pelos copistas, por que deveríamos confiar acriticamente nas palavras que compunham seus textos originais? Segundo Ehrman (2014a), boa parte dos historiadores está segura de que as pessoas que escreveram “Mateus”, “Marcos”, “Lucas” e “João” não conviveram com Jesus. Há várias razões para se sustentar isso, e uma delas vem destes versículos do Evangelho atribuído a Lucas (1:1-2): “Muitos já se dedicaram a elaborar um relato dos fatos que se cumpriram entre nós, conforme nos foram transmitidos por aqueles que desde o início foram testemunhas oculares e servos da palavra” (p. 1665). Nesse sentido, por que haveríamos de crer que os autores do NT não modificaram nada do que eles leram e ouviram sobre Jesus? Por exemplo, há evidências de que, embora Mateus e Lucas tenham retirado muitas informações do Evangelho de Marcos a fim de escrever seus próprios textos, eles acabaram realizando alguns “reparos”. Quanto ao que as pessoas diziam sobre Jesus, mesmo que os autores do NT tenham registrado de forma mais ou menos fiel o que ouviram, todos os que já brincaram de “telefone sem fio” sabem o que ocorre com coisas que são transmitidas e retransmitidas oralmente. Estima-se que décadas separaram a morte de Jesus da confecção dos Evangelhos, e não é nada estranho que o último deles a ser escrito, o de João, seja o mais divergente em termos de conteúdo. Portanto, ainda que as Escrituras sejam historicamente relevantes, isso não significa que elas fossem originalmente isentas de distorções voluntárias e de inverdades.

Embora haja outros problemas quanto à tese de que o NT é infalível e foi divinamente inspirado, Ehrman ou as mencionou muito superficialmente em seu livro, ou sequer as considerou. Exemplos disso são as diversas contradições entre os textos sagrados, seus erros factuais (e.g., Mc 4:31), os critérios evidentemente humanos para se selecionar quais livros seriam canonizados e, como defende o mesmo autor noutro de seus livros (2014b), as disputas político-teológicas entre pessoas que resultaram na institucionalização da tese de que o profeta nazareno era a encarnação do Todo-Poderoso. Para mim, tudo isso corrobora a conclusão de Ehrman de que a “Bíblia, feitas todas as contas, é um livro inteiramente humano” (p. 22). Indo um pouquinho além, tudo isso reforçou a minha crença de que Jesus, enquanto Cristo, é só mais um dos milhares de deuses que nós criamos inspirados em nós mesmos – voluntária ou involuntariamente.

Este texto foi originalmente publicado por Raciocínio Aberto. Leia o original aqui.

Referências:

  1. Bíblia de Estudo Arqueológica NVI (2013). Equipe de tradução: Claiton André Kunz, Eliseu Manoel dos Santos e Marcelo Smargiasse. São Paulo: Editora Vida.
  2. Ehrman, B. D. (2014a). Jesus existiu ou não? Rio de Janeiro: Agir.
  3. Ehrman, B. D. (2014b). Como Jesus se tornou Deus. São Paulo: LeYa.
  4. Ehrman, B. D. (2015). O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Quem mudou a Bíblia e por quê (2ª ed.). Rio de Janeiro: Agir.