(Créditos da imagem: Michael Okoniewski / Wikimedia Commons).

Vênus é um planeta inóspito, mas talvez não tanto. Um estudo publicado hoje (14) na Nature Astronomy encontrou evidências da existência de vida microscópica em Vênus (veja bem, ainda não provas, mas fortes evidências), conforme abordamos neste artigo. Embora Vênus não possua um clima muito interessante para a vida, com sua atmosfera rica em dióxido de carbono e com bastante ácido sulfúrico, os cientistas sempre cogitaram a vida por lá, inclusive Carl Sagan, um grande e o mais famoso divulgador científico. Além disso, ele também possuiu uma boa carreira acadêmica.

Em 1962, a sonda Mariner 2, da NASA, alcançou Vênus. No planeta, no entanto, ela descobriu que as temperaturas ultrapassaram os 400° Celsius. Isso derrubou a esperança de muitos em encontrar a vida por Vênus. Mas devemos lembrar que essa época era o início da corrida espacial, e pouco sabiam os cientistas sobre as coisas que aconteciam fora da Terra.

Alimentando esperanças

No entanto, Carl Sagan estava entre os que não perderam as esperanças. Em 1967, Sagan publica na revista Nature um artigo intitulado “Life on the Surface of Venus?“. Ele sabia que a superfície era quente demais, mas levanta outras possibilidades.

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No resumo de seu artigo, Sagan diz que “mesmo se a superfície for quente, as regiões polares podem ser frias o suficiente para sustentar a vida, ou podem existir montanhas suficientemente altas, e assim por diante. Parece apropriado relacionar algumas dessas especulações para a continuidade do trabalho no ambiente físico de Vênus”.

(Créditos da imagem: NASA).

No mesmo ano, Sagan publica, em coautoria com Harold Morowitz, um artigo chamado “Life in the Clouds of Venus?, onde abordava a possibilidade da vida nas nuvens do planeta. O curioso é que no decorrer do artigo, Morowitz e Sagan não se limitam aos seres microscópicos, mas cita a plausibilidade da vida macroscópica, apresentando seus argumentos e cálculos que explicam  a linha de pensamento.

“Um organismo macroscópico vivendo nas nuvens de Vênus deve ser regulado para viver essencialmente em uma altitude fixada. Se for carregado, por exemplo, por ventos convectivos descendentes para a atmosfera baixa, encontrará altas e desconfortáveis temperaturas, e se for carregado para o topo das nuvens, encontrará muito pouca umidade e temperaturas muito baixas”, explica a dupla no artigo.

Carl Sagan “influencer”?

Talvez um pouco  por influência de Sagan, ou talvez não, mas os cientistas nunca se esqueceram do debate e da busca da vida em Vênus, embora Marte tenha se tornado favorito na briga.  Em agosto, no periódico Astrobiology, um estudo liderado Sara Seager, astrofísica do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), abordou meios pelos quais os micro-organismo poderiam prosperar nas nuvens de Vênus.

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Esses micro-organismos viveriam, portanto, pelas nuvens de Vênus em um “ciclo de vida e morte”. Utilizando gotículas de água como proteção contra as agressões de temperatura e acidez da atmosfera, eles sobreviveriam. Ao cair, a gotícula evaporaria e eles seriam expostos e entraram em um estado dormente. No entanto, voltariam para a vida ao serem lançados para o alto novamente. Isso só é possível, entretanto, em temperaturas abaixo dos 77° C, conforme SEAGER, S. et al.

Os cientistas terem encontrado evidências da existência da vida em Vênus agora, no entanto, não significa uma prova. De qualquer forma, torçamos para que em um futuro próximo uma prova de fato da vida em Vênus, ou em qualquer lugar do universo, surja. Seja essa vida inteligente, animal, vegetal, microscópica, ou seja lá quais formas de vida o universo permitir. 

“Se não existe vida fora da Terra, então o universo é um grande desperdício de espaço.”

— Carl Sagan.

Referências: 

  1. MOROWITZ, Harold. SAGAN, Carl. “Life in the Clouds of Venus?”. Nature, volume 215, pages 1259–1260 (1967). Acesso em: 14 set. 2020.
  2. SAGAN, Carl. “Life on the Surface of Venus?”. Nature, volume 216, pages 1198–1199 (1967). Acesso em: 14 set. 2020.
  3. SEAGER, Sara et al. “The Venusian Lower Atmosphere Haze as a Depot for Desiccated Microbial Life: A Proposed Life Cycle for Persistence of the Venusian Aerial Biosphere”. Astrobiology (2020). Acesso em: 14 set. 2020.