(Créditos da imagem: Freepik Premium).

Matrix é um dos filmes mais aclamados e mais conhecidos da história. Se você não conhece o filme (mesmo que não tenha assistido), provavelmente não vive no planeta Terra. O fato é: Matrix tornou mais popular o debate em relação à hipótese da simulação. Até seu lançamento, talvez não tivesse passado essa ideia pela cabeça de muitas pessoas – até porque naquela época, os computadores não eram tão disseminados assim.

Nos dias de hoje, duas décadas após o lançamento do primeiro Matrix, o poder da computação aumentou de uma forma inacreditável. Por exemplo, o Power Macintosh G3, lançado em 1999, mesmo ano de Matrix, possuía um processador com apenas um núcleo, e que não passava dos 450 MHz de frequência. É difícil até se comparar com um processador atual, já que são muitos pontos a se levar em conta. Em termos de frequência, os processadores mais básicos de hoje são pelo menos 6 ou 7 vezes mais velozes, além de muitos mais núcleos, e uma arquitetura muito mais avançada – antes em termos de micrômetros, e hoje em nanômetros.

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A questão é: em uma época muito próxima, os computadores pessoais não eram tão potentes como os de hoje. Atualmente, com o lançamento de novas placas gráficas, no entanto, vemos a crescente melhora na qualidade dos gráficos. Alguns jogos são extremamente realistas, e chegam a nos assustar. Se na época era um pouco menos concebível a ideia de uma simulação, dado o poder de computação bem menor, hoje, mesmo computadores pessoais nos impressionam.

Além do crescimento no poder de processamento e do poder de renderização gráfica, devemos destacar, é claro, a crescente melhora nas inteligências artificiais. Há algumas semanas, falei aqui no Ciencianautas  sobre o GPT-3, uma inteligência artificial feita pela Open AI, uma instituição na qual um dos nomes envolvidos é nada menos do que Elon Musk. A GPT-3 aprendeu a conduzir diversas tarefas bastante avançadas, como programar. Há alguns dias, o GPT-3 chegou ao cúmulo de publicar uma coluna no jornal britânico The Guardian, que você pode ler clicando aqui.

Há limitações computacionais?

Talvez um dos maiores medos da humanidade é um dia atingir o limite da evolução computacional. Mas isso é bastante difícil, embora seja um tema bastante abordado em trabalhos acadêmicos. Em 2017, os pesquisadores Zohar Ringel e Dmitry L. Kovrizhin publicaram um estudo na revista Science Advances onde abordavam a complexidade nas simulações dos sistemas quânticos relacionados com respostas à gravidade sofrem diversas limitações computacionais por alguns motivos técnicos. Em resumo, o estudo diz que seria impossível simular um universo inteiro computacionalmente, a não ser que tivéssemos um computador maior do que o próprio universo. Nesse caso, poderíamos dar um adeus à hipótese da simulação.

Entretanto, essa concepção é baseada no que sabemos hoje em relação aos computadores. Lembremos da ‘Mãe de Todas as Demos’, uma palestra de 1968 onde Douglas Engelbart demonstra que computadores poderiam exercer diversas funções além de simplesmente calcular. Naquela época, um computador era apenas uma calculadora. Ninguém imaginava as redes sociais, trocas de mensagens, videoconferências. Engelbart era considerado um louco.

No dias de hoje vivemos o advento da computação quântica. Essa nova fórmula de calcular abre portas, por ser algo completamente diferente da computação convencional (entenda um pouco sobre em nosso artigo sobre a física quântica). Basicamente, por partir de princípios baseados no estado de uma partícula subatômica, a capacidade de processamento é incrivelmente maior do que em qualquer computador convencional.

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No final de 2019, em um estudo publicado na revista Nature, a Google reivindicava que havia alcançado a supremacia quântica, ou seja, o ponto onde um computador quântico resolve um problema que um computador convencional levaria um tempo impraticável. Nesse caso, o computador quântico da Google resolveu em 3 minutos e 2 segundos um problema que seria resolvido em 10 mil anos pelo supercomputador mais poderoso do mundo. Outra novidade, é que entre janeiro e agosto de 2020 a IBM conseguiu dobrar o desempenho de seus computadores quânticos. Essa progressão extremamente alta é algo que se confere há alguns anos, sempre sobrando a capacidade em intervalos de tempo bastante pequenos.

Sistema de resfriamento de um computador quântico da IBM. (Créditos da imagem: IBM Research).

O ponto é: entendemos que há limitações de poder computacional para possibilitar uma simulação de um universo completo, com todas essas leis e complexidades. Entretanto, isso com base no que conhecemos em física e tecnologia. Na ‘Mãe de Todas as Demos’, o público ficou boquiaberto com o que Engelbart conseguia fazer com um computador.  Também há o ponto de que mal conhecemos o nosso universo, e talvez nunca conheceremos muito bem. Quem garante que um dia pudéssemos ter a capacidade de simular um universo parecido?

O debate filosófico da hipótese da simulação

Elon Musk e Neil Tyson são suas pessoas que dizem publicamente considerar que há uma possibilidade alta de estarmos em uma simulação. É claro que não utilizarei, no entanto, a mera opinião de duas figuras públicas como argumento para a hipótese da simulação. Desde a antiguidade, debates em relação à existência de uma realidade, ou que tudo é apenas “o pensamento de uma consciência”, estão na mesa.

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Uma frase que imortalizou esse pensamento é a “Penso, logo existo”, uma generalização dos trabalhos filosóficos de René Descartes. A frase é originada do livro Discurso sobre o Método, publicado em 1637. Em resumo (filósofos, não me batam), Descartes dizia que ele poderia duvidar de tudo. Ele não poderia duvidar, no entanto, que ele mesmo duvidava. Portanto, isso é uma prova de que pelo menos ele – ou você, nesse caso -, é uma mente pensante.

Ok, isso não possui relações com a ideia de uma simulação. Entretanto, é também uma maneira de se questionar a realidade. Como sabemos que a nossa percepção nos entrega a realidade de fato  como ela é? Podemo dizer que isso é impossível de se provar, pois se essa é a nossa única percepção, como poderíamos fugir disso? Em relação à ideia de uma simulação, podemos ao menos abordar um debate filosófico.

Em 2003, o filósofo Nick Bostrom publicou uma das obras mais famosas da filosofia da tecnologia. O artigo, chamado “Are You Livin in a Computer Simulation?” (Philosophical Quarterly (2003) Vol. 53, No. 211, pp. 243‐255), ou “Você Está Vivendo em uma Simulação de Computador?”, no português, argumenta em três pontos, a hipótese da simulação, baseado na dualidade simulação ou não simulação. 

(Créditos da imagem: Freepik Premium).

O primeiro ponto diz que é grande a probabilidade de um civilização se extinguir antes de chegar em um estágio “pós-humano”, onde teria a capacidade de criar uma simulação de computador realista. Esse ponto corrobora com um das hipóteses que buscam encontrar os motivos pelos quais até hoje não encontramos outras raças alienígenas, além de corroborar também com a ideia de que estamos de fato caminhando para a extinção por nossa própria culpa. Isso poderia ser uma tendência que se verifica nas civilizações inteligentes. Mas isso não implica, também, necessariamente na extinção. Isso apenas significaria que estaríamos próximos de atingir nosso estágio máximo de evolução (o que seria muito triste), mas corrobora com o trabalho de Ringel e Kovrizhin.

O segundo ponto defendido por Bostrom é que as civilizações não estariam interessadas em executar uma simulação (ou a tecnologia não permitiria). Uma simulação seria útil para estudar a história evolutiva da vida, ou dos seres inteligentes, testar ideias, ou até mesmo entender para onde a civilização matrix estaria caminhando. São inúmeras as utilidades de uma simulação. Mas ele defende que uma civilização poderia não estar interessada em criar uma simulação complexa. 

O terceiro ponto é o de que é quase certeza que vivemos em uma simulação. Bostrom diz que uma das proposições precisa, necessariamente, estar correta. Nesse caso, considerando apenas esses três postulados, poderíamos afirmar que a probabilidade de estarmos vivendo em uma simulação é de ⅓. Isso é apenas uma generalização, e se quiser entender o trabalho com os cálculos, os argumentos e todos os pormenores, ele está disponível em um pdf gratuito neste link.

Se considerássemos apenas a ideia de que em algum momento, qualquer civilização teria a vontade e a capacidade de criar uma civilização, poderíamos dizer que a possibilidade de estarmos em uma simulação seria próxima aos 100%, já que nesse caso, seria uma civilização matrix contra, potencialmente, milhares, ou até mesmo milhões de camadas de civilizações, uma simulando outra. 

Portanto, o que podemos concluir é que a ideia de estarmos vivendo em uma simulação é algo realmente considerável. No entanto, é extremamente difícil calcular essa possibilidade, pois esse valor pode depender de cada cenário que colocamos, e cada cenário, por sua vez, depende de inúmeros parâmetros. Mas se estamos em uma simulação, também, poderia ser do desejo de nossos desenvolvedores que nunca descobríssemos isso, assim como uma torradeira provavelmente não sabe que é uma torradeira. Esse, infelizmente, a hipótese da simulação é um debate provavelmente sem resposta. 

Referências: 

  1. BOSTROM, Nick. “Are You Livin in a Computer Simulation?”. Philosophical Quarterly (2003). Vol. 53, No. 211, pp. 243‐255. Acesso em: 13 set. 2020.
  2.  RINGEL, Zohar. KOVRIZHIN, Dmitry. Science Advances (2017). Vol. 3, no. 9, e1701758. “Quantized gravitational responses, the sign problem, and quantum complexity”. Acesso em: 13 set. 2020.
  3. Wired. “50 Years Later, We Still Don’t Grasp the Mother of All Demos”. Acesso em: 13 ago. 2020.