(Créditos da imagem: Pixabay).

Notícias falsas não são novidade. Na história, os primeiros registros remontam à antiguidade, como manobras de disputas políticas.

O termo “fake news” foi muito popularizado durante as eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2016, onde Donald Trump foi eleito. A partir desse período, a polêmica quanto às notícias falsas tomou um tamanho sem precedentes. Em 2017, a editora Collins elegeu o termo fake news como palavra do ano.

As últimas eleições presidenciais no Brasil também foram repletas de fake news, utilizadas por todos os lados do espectro político, principalmente por meio do WhatsApp e do Facebook. É fato que elas exerceram um grande efeito, principalmente com a preocupante e crescente polarização política.

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Outro exemplo famoso é o caso das vacinas. O médico inglês Andrew Wakefield forjou uma ligação entre a vacina tríplice viral e o autismo, já desmentido por diversos experimentos. Infelizmente, o boato alcançou enormes proporções e grupos anti-vacina cresceram e se espalharam pelo mundo, ganhando força com ajuda das notícias falsas. Com isso, o sarampo, por exemplo, volta a se espalhar, até mesmo em territórios onde já havia sido erradicado.

O perigo é real, e as fake news e o sensacionalismo são verdadeiras armas, com um potencial para gerar crises de saúde pública, como observamos com o aumento nos movimentos anti-vacinas; problemas políticos, com a polarização e radicalização de grupos, como os crescentes movimentos xenofóbicos e supremacistas; problemas econômicos etc.

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Segundo um estudo do MIT em que foram analisadas 126 mil “cascatas” de notícias entre 2006 e 2017 no Twitter, as notícias falsas possuem 70% a mais de probabilidade de serem compartilhadas do que as verídicas. As redes sociais estão tomando atitudes para o combate das fake news, e diversos veículos jornalísticos estão investindo em fact-checking.

Em essência, o termo “notícia falsa” refere-se a uma notícia inteiramente criada. No entanto, o termo já perdeu esse significado. Fake news ganhou um significado mais amplo: o termo é utilizado também para se referir a notícias e informações distorcidas, exageradas e descontextualizadas.

O efeito das fake news

Para entender melhor o sucesso nas notícias falsas, em seu significado amplo, devemos antes entender alguns fenômenos da psicologia.

O viés de confirmação é a tendência de interpretar, buscar, favorecer e acolher informações de maneira que corroborem suas crenças. Há também a tendência oposta, que é a de desfavorecer, ignorar e evitar informações que contradizem ou refutam suas crenças. O psicólogo Jonathan Baron percebeu que ao solicitar que as pessoas julgassem a qualidade de alguns argumentos, havia uma tendência de valorizar mais os argumentos unilaterais (BARON, 1995).

Dentro do viés confirmatório também há a correlação ilusória, uma tendência a estabelecer relações entre dois ou mais eventos de modo a confirmar suas crenças, mesmo que tal não faça sentido.

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Também há outros fenômenos psicológicos, emocionais e fatores que exercem influência, como o pessimismo na política, no caso das eleições. A busca por um vilão e um herói.

O efeito da verdade ilusória também explica. Esse efeito pode ser sintetizado pela frase “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”, atribuída a Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler.

As notícias falsas exploram muito a associação desses fenômenos. Algoritmos do Facebook, por exemplo, são manipulados de forma que determinada notícia de caráter duvidoso seja direcionada para um grupo com a tendência de acatá-la e compartilhá-la. No WhatsApp ocorre algo parecido, onde a disseminação de informações falsas é feita inteiramente pelas pessoas, sem a interferência de algoritmos. No Brasil, há 120 milhões de usuários no WhatsApp, mais da metade da população do país.

Nesse contexto, as fake news se alastram de maneira exponencial, e as bolhas formadas se polarizam cada vez mais.

Checagem de fatos

A apuração de informações pode parecer difícil e trabalhosa, mas demanda poucos cliques. Separamos algumas dicas:

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  1. O primeiro, e mais essencial é: não se apegue a uma ideia. O olhar cético é de suma importância.
  2. Veja se o título ou o texto parecem sensacionalistas; o sensacionalismo geralmente apresenta informações de forma muito extraordinárias, muitas vezes com click baits.
  3. Não se restrinja ao título ou à manchete; leia o texto completo.
  4. Procure outras fontes; uma pesquisa no google é rápida e fácil de se fazer
  5. Certifique-se da confiabilidade de suas fontes
  6. Utilize de seu intelecto e ceticismo; aquela notícia faz sentido? Grandes portais podem cair em notícias falsas e sensacionalistas, ou utilizá-las de propósito.

Há diversas iniciativas criadas para a checagem de fatos, como o e-farsas, criado em 2002, Aos Fatos e a Agência Lupa, da Revista Piauí.

Aos produtores de conteúdo, a dica é a certificação de fontes. Prezar pela qualidade do conteúdo é essencial, e para isso, uma apuração é necessária, e fontes confiáveis devem ser utilizadas. Ao ver uma informação, rastreie-a até a raiz antes de utilizá-la, e disponibilize-as para que os leitores possam verificar. A produção de conteúdo de qualidade é uma enorme responsabilidade.

Referências:

  1. BARON, Jonathan (1995). A Theory of Social Decisions.
  2. GRAGNANI, Juliana. “Um Brasil dividido e movido a notícias falsas: uma semana dentro de 272 grupos políticos no WhatsApp”; BBC. Acesso em: 31 mar. 2018.
  3. GUALHARDO, Ricardo. Uso de fake news nas eleições do Brasil é ‘sem precedentes’, diz chefe de missão da OEA”; O Estado de S. Paulo. Acesso em: 31 mar. 2018.
  4. NICKERSON, Raymond S. (1998). Confirmation Bias: A Ubiquitous Phenomenon in Many Guises.
  5. VOSOUGHI, Soroush; ARAL, Sinan. “The spread of true and false news online”. Acesso em: 31 mar. 2018.
  6. WENDLING, Mike. “The (almost) complete history of ‘fake news’”; BBC. Acesso em: 31 mar. 2018.
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Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pelo jornalismo científico. Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente faço o ensino médio em uma ETEC e escrevo para o Ciencianautas.

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