(Créditos da imagem: Freepik Premium)

A Gripe Espanhola foi uma pandemia iniciada em 1918 que pode ter matado até 17 milhões de pessoas, conforme um estudo recente. Sua origem é incerta, mas atualmente as hipóteses dividem-se principalmente entre o estado do Kansas, nos Estados Unidos e uma cidadezinha na França, ambos os casos envolvendo grande concentração de tropas militares e animais em locais com poucas condições sanitárias.

Outras doenças, como a gripe aviária, a doença da vaca louca e a Covid-19 também são consequência do consumo de animais. Há pesquisas que indicam que até 75% das doenças humanas do último séculos possuem origem em animais não humanos.

Todas essas doenças, é claro, não vêm apenas do consumo de carne. Algumas doenças são originadas de animais selvagens, através de, por exemplo, contato físico, consumo de água e alimentos contaminados por saliva e fezes, ou por meio de vetores, como pulgas e mosquitos.

Recentemente, Cynthia Schuck, doutora pela universidade de Oxford e pós-doutora, com sua área de pesquisa envolvendo Biologia Evolutiva, Economia Experimental e Etologia Cognitiva, e o biólogo evolucionista e epidemiologista e Wladimir J. Alonso, também doutor por Oxford, publicaram um livro intitulado “Pandemias, saúde global e escolhas pessoais”, onde abordam essa relação entre doenças e animais.

À Revista Galileu, Cynthia disse que “quanto maior o consumo de carne, maior o risco de novas pandemias”.

Grandes riscos de epidemias

Conforme os pesquisadores relatam no livro, entre 2007 e 2013, mais de 500 surtos de doenças causadas pelo influenza foram relatados em aves em Bangladesh. O principal risco de contaminação se dá durante a manipulação da carne crua e sangrenta, após o abate.

Eles relatam que em visita ao país, constataram que alguns dos trabalhadores que lidavam com esse processamento da carne crua, nem mesmo tinham acesso a equipamentos de proteção e sanitários, como o uso de luvas.

A adaptação do vírus acostumado a outra espécie com características tão distintas às dos seres humanos não é simples. São diversas as mutações. O ambiente perfeito para isso são os locais de criação de animais, pela relação próxima durante várias horas por dia entre eles e os humanos.

Além disso, os pesquisadores destacam que em fazendas industriais, locais de criação intensiva, com grandes números de cabeças, os animais ficam ainda mais suscetíveis à infecções do que em criações familiares, principalmente pela poluição do ar por agente como amônia e poeira fecal, causada pela densidade de cabeças.

Outro grande risco é o transporte dos animais. Segundo o livro, os sistemas de vigilância de patógenos em animais não são adequados suficientemente.

Bactérias e antibióticos

Partindo para o campo das bactérias, há um grande mal: o uso excessivo de antibióticos. Para atender à altíssima demanda, os animais são desumanamente submetidos a uma enorme carga de antibióticos, justamente pelas infecções amplificadas pelo amontoamento.

Alerta-se aos médicos para se evitar de receitar antibióticos em casos desnecessário, o que é válido. No entanto, esse esforço é ofuscado: cerca de 73% dos antibióticos utilizados no mundo são voltados para a pecuária.

Um dos principais medos da ciência é a criação de superbactérias, resistentes a qualquer antibiótico que temos à nossa disposição. O Ciencianautas já abordou o problemas dos antibióticos em um artigo, que você pode acessar clicando aqui.

A redução no consumo de carne

abordamos o assunto da urgente necessidade da diminuição do consumo de carne, mas com uma visão voltada para o meio ambiente: o desmatamento para a produção de alimentos para alimentá-los, a contribuição da pecuária para o aquecimento global, o desperdício de água.

Embora em 2018 cerca de 14% da população brasileira se declarasse adepta ao vegetarianismo, o consumo de carne e outros derivados animais ainda é muito grande, no mundo inteiro. Maiores detalhes são abordados no artigo, e você pode acessá-lo aqui.

Esse fato pode ir contra o senso comum, mas a alimentação de carne é uma forma extremamente ineficiente de se alimentar: a produção animal utiliza 83% das terras agrícolas do mundo, mas representa apenas 37% da proteína e 18% das calorias que consumimos, de acordo com um estudo publicado na revista Science.

Com base em históricos de alguns comentários, vale fazer uma ressalva: apesar de eu, pessoalmente, ser adepto dos pensamentos cruelty free, em caminho ao veganismo, note que esse não é um artigo de idolatria, mas a abordagem de trabalhos científicos preocupados com o futuro, mostrando a importância da redução do consumo, muitas vezes exagerado, do consumo de alimentos de origem animal, e não de uma transição total ao veganismo e ao vegetarianismo. O Ciencianautas tenta, ao máximo, se afastar de vieses.

O livro “Pandemias, saúde global e escolhas pessoais” é gratuito, e você pode acessar o formato digital clicando aqui.

Referências:

  1. PAIM, Cynthia Schuck; ALONSO, Wladimir J. “Pandemias, saúde global e escolhas pessoais”. Acesso em: 30 mai. 2020.
  2. POORE, Joseph; NEMECECK, Thomas. “Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers”. Acesso em: 30 mai. 2020.
  3. SPREEUWENBERG, Peter et al. “Reassessing the Global Mortality Burden of the 1918 Influenza Pandemic”. Acesso em: 30 mai. 2020.
  4. ZANELLA, Janice Reis Ciacci. “Zoonoses emergentes e reemergentes e sua importância para saúde e produção animal”. Acesso em: 30 mai. 2020.
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Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pela divulgação científica. Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente curso Física na UFScar e escrevo para o Ciencianautas.