(Créditos da imagem: Freepik Premium).

No início das pesquisas que visavam o desenvolvimento de armas nucleares, os cientistas temiam incendiar a atmosfera. Inicialmente, o medo surgiu com as bombas atômicas comuns. Depois, com a bomba de hidrogênio. Embora uma bomba atômica causar uma reação da atmosfera da Terra pareça um medo completamente bobo nos dias de hoje, foi um temor real entre os cientistas na década de 1940, mas apenas momentaneamente.

Há até mesmo um documento dos anos 1940 assinado por três dos grandes nomes do Projeto Manhattan – o gigantesco projeto levantado pelo governo dos Estados Unidos para desenvolver a bomba antes dos nazistas e dos soviéticos, na Segunda Guerra Mundial – que excluía a possibilidade de se incendiar a atmosfera por causa de uma explosão nuclear. Um dos nomes que assinavam o documento era Edward Teller, conhecido como “o pai da bomba de hidrogênio”. O documento permaneceu secreto até 1979 e está disponível neste link.

Trinity, o primeiro teste de uma explosão nuclear da história. (Créditos da imagem: U.S Government).

O medo da bomba atômica

“Bem, o que aconteceria com o ar se uma bomba atômica explodisse no ar?”, disse um dia Teller a um grupo de físicos, no ano de 1942, três anos antes da primeira explosão nuclear da história, conforme contou o físico Hans Bethe em entrevista à revista Scientific American em 1991. “Bem, e quanto ao ar? Há nitrogênio no ar e você pode ter uma reação nuclear na qual dois núcleos de nitrogênio colidem e se tornam oxigênio mais carbono, e neste processo você libera muita energia. Isso não poderia acontecer?”, disse Teller aos outros físicos, na ocasião. 

Segundo Bethe, o famoso Robert Oppenheimer, principal chefe do Projeto Manhattan, ficou tão assustado quando entusiasmado. Era interessante pensar se isso ocorreria, mas ao mesmo tempo assustava a ideia de que a explosão de uma simples bomba nuclear causasse um efeito em cadeia e incendiasse toda a atmosfera da Terra em novas reações nucleares. 

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Outra conversa foi relatada em uma reportagem da escritora Pearl Buck. Ela fala sobre um telefonema entre Oppenheimer e outro físico importante do Projeto Manhattan, Arthur Compton. Após falar de um possível incêndio na atmosfera por uma explosão nuclear, Compton diz: “Melhor aceitar a escravidão dos nazistas do que correr a chance de puxar a cortina final sobre a humanidade!”

O medo estava, basicamente, em causar na atmosfera da Terra as reações que ocorrem no Sol. Mas obviamente, isso é praticamente impossível. Após dezenas (senão centenas) de testes nucleares, a Terra continua inteira. Mas claro, há efeitos extremamente negativos dos testes, como a contaminação dos oceanos. Enfim, voltando ao assunto, os riscos de se incendiar a atmosfera são, portanto, menores do que uma em três milhões, conforme um artigo do físico H.C. Dudley, “The Ultimate Catastrophe”, publicado em novembro de 1975 no Bulletin of the Atomic Scientists.

(Créditos da imagem: Freepik Premium).

No ano seguinte, no entanto, Bethe rebateu Dudley e disse que a chance era absolutamente zero. Ele disse que não havia “nenhuma chance de que uma arma atômica possa inflamar a atmosfera ou o oceano”, em um artigo publicado na década de 1970, especialmente para refutar Dudley. Essa retomada de debate por parte de Dudley em plena década de 1970, quando já sabia-se da impossibilidade de se queimar a atmosfera, caiu mal. 

“Esse trabalho foi feito antes do primeiro teste nuclear em Alamogordo, em julho de 1945, e garantiu aos líderes e membros do projeto que não existia o perigo de que o teste incendiasse a atmosfera. O relatório LA-602 foi distribuído em agosto de 1946; era segredo até fevereiro de 1973, quando foi desclassificado”, diz Bethe em seu artigo

A ciência por trás disso

Mas ainda considerando as possibilidades pautadas durante dos anos 1940, por simples questão de segurança, os cientistas temiam. Não tratava-se de um temor por um perigo iminente, mas a simples possibilidade, por menor que fosse, assustou muitos. Coloque-se no lugar de uma equipe de cientistas sob grande stress em uma corrida contra o tempo – eles precisavam da bomba antes dos nazistas, e ao mesmo tempo não queriam destruir o planeta com a força dos átomos. 

“Se, após o cálculo, ele [Compton] disse, ficasse provado que as chances eram mais de aproximadamente três em um milhão de que a Terra seria vaporizada pela explosão atômica, ele não daria continuidade ao projeto. O cálculo provou os números um pouco menos – e o projeto continuou”, relata Buck em sua matéria. Portanto, os cientistas queriam trabalhar apenas com chances realmente pequenas.

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O medo estava no hidrogênio (presente na água) e no nitrogênio (presente na atmosfera). O hidrogênio é o principal combustível do Sol e das bombas termonucleares, que surgiriam mais tarde. Basicamente, alguns cientistas temiam que a energia da bomba catalisasse uma reação com o hidrogênio. Já o nitrogênio é um gás nobre e, portanto, extremamente estável. Mas, ainda é, em certa medida, instável, assim como qualquer elemento da tabela periódica. Quase 80% da atmosfera da Terra é composta por nitrogênio. Em uma reação com nitrogênio, você liberaria oxigênio, carbono e muita energia. Isso vaporizaria a Terra.  

Ainda perigosas, muito perigosas

Ok, a bomba atômica não carbonizou o planeta. Mas claro que ainda há inúmeros outros pontos negativos em uma bomba nuclear, e elas continuam a exercer um perigo apocalíptico, uma vez que sempre há um pequeno risco de uma guerra nuclear, embora baixíssimo.

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Hiroshima após o lançamento da bomba. (Créditos da imagem: U.S Government).

Além disso, os efeitos nos humanos atingidos por essas explosões são inacreditáveis – e os Estados Unidos cometeram uma imensa covardia de lançar as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki – sobretudo pelo fato que as duas primeiras bombas nucleares não possuíam um efeito tão destrutivo, mas mais psicológico. Debate-se, inclusive, a ideia de que os Estados Unidos lançaram a bomba para “mostrar o poderio norte-americano” aos soviéticos, já que a guerra já estava ganha. 

Há também o lado que defende que as bombas preveniram mais mortes, já que o uso de bombas convencionais, além das destrutivas bombas incendiárias causariam um número ainda maior de mortes. Não duvido que muitos realmente pensassem por esse lado na tentativa de poupar vidas humanas, mas faz claramente parte da narrativa vencedora da guerra. 

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