(Créditos da imagem: Freepik Premium).

1. O combo de Chernobyl

Os reatores RBMK (Reator Canalizado de Alta Potência), criação soviética, eram muito utilizados pelos baixos custos e a produção de plutônio como rejeito, que poderia ser aproveitado na área militar. Esses reatores, no entanto, podem ser perigosos por alguns motivos, entre eles: geralmente utiliza-se água como moderador e absorvedor de nêutrons e resfriador do reator. No caso dos RBMK, além da água, havia o grafite como moderador ( o papel do moderador é controlar a velocidade dos nêutrons e, consequentemente, diminuir a taxa de fissão dos átomos). Se a água é retirada, em um reator que não possui grafites, a reação para. Se houver grafites, a reação continua, mas sem a absorção de nêutrons e sem resfriamento.

Os técnicos queriam fazer um teste: as bombas de água eram alimentadas pela própria usina. Se por um motivo, a usina ficasse sem eletricidade, entrariam em ação os geradores à diesel, que levavam, no entanto, mais de 1 minuto para chegar na velocidade total; isso significa 1 minuto sem água no reator, o que é desastroso. A solução encontrada, foi utilizar a inércia do gerador da usina para manter a água bombeada por alguns segundos – 45 segundos, pela previsão -, até que o gerador a diesel entrasse em funcionamento. Isso, no entanto, nunca havia sido testado na prática.

25 de abril de 1986. Um turno específico realizaria o teste. No entanto, a capacidade da usina deveria ser reduzida, e naquele horário haveria um pico no uso de eletricidade. O teste, então, foi permitido de madrugada, quando o turno já havia sido trocado; despreparados, portanto.

O preparo se inicia, mas o acúmulo de um tipo de xenônio “envenenava” o reator, fazendo com que a potência caísse abaixo do necessário para o teste. O supervisor do turno queria adiar o teste, pois o manual dizia que a potência não podia ser reduzida a um valor menor do que 700 MW (megawatt); o engenheiro-chefe, hierarquicamente superior, entretanto, rebateu que até 200 MW era seguro.

O teste segue e os problemas começam a surgir em efeito dominó: com a redução da potência a quase os níveis de desligamento, os operadores resolveram retirar quase todas as barras de grafite para aumentar as reações; a menor quantidade de eletricidade fez com que o nível de água baixasse e o calor formou vapor, fazendo com que não houvesse absorção de nêutrons nem de calor, e as reações nucleares ficaram descontroladas. Quando acionaram o botão de emergência que desligava o reator, um dos processos era a inserção de todas as barras de grafite, que travaram na descida. E é assim que todo o problema a seguir se inicia. Para se ter ideia do tamanho da explosão, o teto da usina desapareceu.

Teto da usina após as explosões e incêndios. (Créditos da imagem: Reprodução).

Esse é só o início do problema. Nas 36 horas subsequentes à explosão, ninguém foi evacuado de Pripyat – cidade vizinha que abrigava os trabalhadores e suas famílias. A divulgação de um acidente nuclear era politicamente negativa; o governo soviético só foi comentar o ocorrido no dia 28, dois dias após o desastre, quando a radiação já era detectada em outros países. 6,7 toneladas de material radioativo foram liberadas na atmofera. Em poucos dias, toda a europa já estava contaminada; no dia 2 de maio, a radiação chega até o Japão. No dia 6, já era detectada na América do Norte.

A quantidade total de mortes indiretas é incerta; os número são controversos. Um estudo de 1996, por Elisabeth Cardis aponta até 16 mil; outro, feito por  Ian Fairlie, aponta algo entre 30 e 60 mil mortes. O número final é difícil de ser avaliado, principalmente por que, pelo menos na época do estudo, um quarto das mortes na europa eram por câncer, e é difícil ligá-las a Chernobyl.

Em 2019 ainda haviam 11 reatores do tipo RBMK em operação na Rússia.

Chernobyl 2.0

O segundo problema envolvendo Chernobyl, são os incêndios que estão ocorrendo nos arredores, agora em 2020, e elevaram a radiação até mesmo em Kiev, capital da Ucrânia. Os incêndios, segundo dados recentes, já se aproximavam dos reatores que armazenam rejeitos radioativos. Há anos pesquisas alertavam dos riscos das constantes queimadas da região, comuns no início da primavera. Um estudo de 2015 já alertava para esses riscos, mas pouco foi feito.

2. Queimadas da amazônia

Em julho de 2019 ampliam-se as polêmicas, quando o presidente, Jair Bolsonaro, acusa o ex-diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), na época ainda no cargo, de propagar informações falsas quanto desmatamento na amazônia. “A questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos”, disse o presidente, no momento em questão.

E não é uma questão partidária. O problema com as queimadas se alongam há muito tempo. Um relatório de 2012 alertava que 90% dos focos de incêndio na floresta de localizavam no Brasil, e o Brasil possui apenas 60% da floresta dentro das fronteiras. A foto abaixo contém queimadas nas margens do Rio Xingu, e foi capturada em 2011 por um astronauta na ISS (sigla em inglês para Estação Espacial Internacional). 

Foto de fumaça nas margens do Rio Xingu capturada por astronauta à bordo da ISS em 2011. (Créditos da imagem: NASA).

Uma tabela oficial do Inpe, atualizada diariamente, mostra os dados de queimadas coletados em todos os estados, desde 1998. O número anual de queimadas é altíssimo há anos, constantemente passando dos cem mil focos, e raramente se aproximando dos 50 mil. A média, inclusive, é de quase 110 mil focos – que pode ter sido inflada pelos anos de pico; 110 mil não é um número bom. Nos últimos 20 anos, somente o ano de 2000 teve um número abaixo dos 50 mil. Desde então, somente 2011 e 2013 tiveram uma quantidade de focos de incêndio na faixa dos 50 mil, 58186 e 58688 focos, respectivamente. A polêmica dos aumentos em 2019 se dão pois, nos aumentos anteriores, 2005, 2010 e 2015, houveram secas; 2019 não apresentou anomalias consideráveis. 

O esquecimento das polêmicas dos incêndios de 2019 demonstram a falta de preocupação com esses problemas. A taxa de desmatamento na Amazônia Legal, que caiu bruscamente desde 2005, atingindo os patamares mais baixos em 2012, com cerca de 4500 km², voltou a subir desde então, sendo 2019 o maior da última década, próximo aos 10 mil km², ainda que menos da metade dos valores brutais anteriores a 2004, ultrapassando, em alguns anos, os 20 mil km². Ainda assim, há uma nova tendência de crescimento, e isso é um grande erro. Há tempos os cientistas alertam para um ponto irreversível, em que a recuperação da maior floresta tropical do mundo será impossível; a área desmatada da floresta deve permanecer menor do que 20% do tamanho total para não colapsar, como já abordamos aqui no Ciencianautas.

Histórico de desmatamento desde 1988 na Amazônia Legal. (Créditos da imagem: INPE).

3. Challenger 

Ônibus espacial Challenger em lançamento em 1983. (Créditos da imagem: U.S. Department of Defense)

O ano é 1986; mais um dos grandiosos ônibus espaciais está para ser lançado. O Challenger, no entanto, explode aos 73 segundos de voo, matando os 7 tripulantes: 5 astronautas e dois civis.

A causa do acidente não era desconhecida antes do lançamento. Os engenheiros haviam visto gelo acumulado por toda a plataforma de lançamento, na noite anterior ao lançamento, gerando no equipamento temperaturas muito inferiores às anteriormente trabalhadas. Quando foi constatado que o gelo estava derretendo, decidiram por não adiar o lançamento. As investigações mostraram que o gelo foi um dos principais fatores.

O que ocorreu, foi um problema na vedação em algumas juntas, já que os anéis de vedação utilizados não se comportavam em baixas temperaturas da forma correta.

O desastre mostrou para a NASA a necessidade de desacelerar os programas espaciais, que estavam muito rápidos, diminuindo a segurança. A NASA ainda parou de enviar civis em missões potencialmente perigosas.

4. Mariana e Brumadinho

Brumadinho – MG. (Créditos da imagem: Vinícius Mendonça / Ibama).

O desastre de Brumadinho, ocorrido no início de 2019, pareceu um deja vu do rompimento da barragem de Mariana, ocorrida em 2015. No final de 2018, o Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam), da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas (Semad), havia liberado a mina de aumentar sua produção em quase o dobro. Esse projeto, no entanto, foi bastante criticado pela falta de uma análise detalhada; o licenciamento foi feito às pressas, com uma só fase, frente às 3 fases que geralmente são implementadas. Dados indicavam que a barragem estava muito próxima do limite, mesmo assim, foi declarada segura.

Em Mariana, o desastre foi predominantemente ambiental: o maior desastre ambiental da história do país. Em fevereiro de 2020, quase 5 anos após o desastre, uma enchente no Rio Doce levou óxido de ferro para a casa das pessoas; sim, a contaminação ainda está presente na vida dos moradores, e da vida dependente daquele rio. Conforme disse um morador no início desse ano à BBC, ” Por mais limpa que esteja, vai ficando aquela tinta mineral brilhosa na cerâmica. E depois que baixou tudo é que começamos a ver que as ruas estavam tomadas de lama, e que tinha muito minério junto.”

Brumadinho teve mais perdas humanas: 259 mortos, e até hoje são 11 desaparecidos. No entanto, ainda assim houve grandes efeitos ambientais; em março de 2019, alguns pontos do rio São Francisco possuíam contaminação acima do permitido por lei. O rio Paraopeba, afetado diretamente pela lama, ainda possuía pontos em que a vida aquática é impossibilitada pelo nível de contaminação dos rejeitos em 2020, conforme análise.

O principal ponto em comum dos dois desastres: barragens à montante; frágeis, construídas com a mínima quantidade de recursos possíveis, onde se deposita rejeitos extremamente tóxicos. Não é uma barragem real, feita de concreto e projetada; é um montinho de terra – chamados diques – segurando toneladas de lama; quando um desses diques enche, é feito outro, acima da própria lama. Após o desastre de Brumadinho o Governo Federal proibiu a construção e determinou a desativação de todas as barragens à montante até 2021.

5. Pandemia

(Créditos da imagem: Freepik Premium)

Estamos vivendo uma pandemia, e vemos diariamente, de perto, as dificuldades enfrentadas: distanciamento físico, mortes em crescimento exponencial, economia sofrendo, hospitais em colapso. Esse problema, no entanto, não deveria ter sido uma surpresa. A iminência de uma pandemia é alertada há anos.

Um vídeo que viralizou na internet, foi um TEDTalks de 2015 em que Bill Gates alertava que o maior risco que a humanidade corria era o de um vírus. “Quando eu era criança, o desastre que mais temíamos era uma guerra nuclear. Hoje, o maior risco de catástrofe global não se parece com uma bomba, mas sim com um vírus”, inicia a palestra.

O Bill Gates não precisa ser nenhum vidente para dizer isso. Essa previsão de chama ciência. No início de 2019, o Diretor-Geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que “A questão não é se teremos outra pandemia, mas quando”. As maiores suspeitas, no entanto, sempre foram com algum vírus da gripe.

O coronavírus também sempre foi considerado pelos cientistas um grande risco. Um estudo de 2007 alertava para os riscos do consumo de animais exóticos, citando ainda um dos tipos do coronavírus. Um projeto de 2018, com a participação de vários países, incluindo o Brasil, já visava identificar vírus candidatos a causa de uma pandemia, e os cientistas até mesmo criticaram a falta da existência de uma vacina para o coronavírus. Há muito já se sabia do despreparo do mundo para esse problema.

Referências:

  1. BBC. “Chernobyl: incêndio se aproxima de reator da usina nuclear abandonada”. Acesso em: 18 abr. 2020.
  2. Business Insider. “NASA’s space shuttle Challenger exploded 34 years ago today, killing its 7-person crew. Photos reveal Challenger’s legacy.”. Acesso em: 16 abr. 2020.
  3. CHENG, Vincent el al. “Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus as an Agent of Emerging and Reemerging Infection”. Acesso em: 16 abr. 2020.
  4. Ciência Todo Dia. “Chernobyl: A História Completa”. Acesso em: 19 abr. 2020.

Correio Braziliense. “Avisos ignorados sobre risco em barragem poderiam ter evitado tragédia”. Acesso em: 19 abr. 2020.

  1. ESTADÃO. “Projeto quer identificar vírus que possam causar a próxima pandemia”. Acesso em: 16 abr. 2020. 
  2. EVANGELIOU, N et al. “Fire evolution in the radioactive forests of Ukraine and Belarus: future risks for the population and the environment”. Acesso em: 18 abr. 2020.
  3. FioCruz. “Estamos preparados?”. Acesso em: 16 abr. 2020.
  4. INPE. “A estimativa da taxa de desmatamento por corte raso para a Amazônia Legal em 2019 é de 9.762 km²”. Acesso em: 16 abr. 2020.
  5. INPE. “Monitoramento dos Focos Ativos por Estado”. Acesso em: 16 abr. 2020.
  6. Isto é. “Um ano depois, Rio Paraopeba ainda não se recuperou da lama”. Acesso em: 19 abr. 2020.
  7. NASA. “Report of the PRESIDENTIAL COMMISSION on the Space Shuttle Challenger Accident”. Acesso em: 16 abr. 2020.
  8. Nature. “Special Report: Counting the dead”. Acesso em: 19 abr. 2020.
  9. NatGeo. “Desastre de Chernobyl: o que aconteceu e os impactos a longo prazo”. Acesso em: 19 abr. 2020.
  10. The NY Times. “Uma gigantesca onda de lama”. Acesso em: 19 abr. 2020.
  11. VEJA. “Incêndios e queimadas na Amazônia: por trás da cortina de fumaça”. Acesso em: 19 abr. 2020.

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Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pela divulgação científica. Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente curso Física na UFScar e escrevo para o Ciencianautas.