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É possível medir a fé? Pessoas mais religiosas são menos depressivas? Por que algumas pessoas não creem em Deus? Questões como essas têm sido sistematicamente respondidas pela Psicologia da Religião e da Espiritualidade (PRE), que é a área de pesquisa em que eu atuo há mais ou menos cinco anos. Infelizmente, esse ramo da ciência ainda é visto com certo preconceito por muita gente. A fim de dissolver mal entendidos e ajudar a quebrar alguns tabus, eu descrevi abaixo cinco curiosidades sobre a PRE.

1. Nós estudamos cientificamente a religiosidade e a espiritualidade como qualquer outro tipo de comportamento

Uma vez que existem questionários que medem os nossos traços de personalidade, por que eu não poderia criar um questionário que meça a nossa crença na ideia de que existe vida após a morte? Diante da afirmação “Satanás está promovendo discórdias entre nós”, você me diria que concorda totalmente com isso, concorda um pouco com isso, discorda um pouco disso ou discorda totalmente disso?

Eu poderia te apresentar diversas outras afirmações desse tipo, atribuir valores numéricos às suas respostas e finalmente chegar a um índice do quanto você é convicto de que seres sobrenaturais existem.[1] Além disso, eu poderia te pedir que assinalasse numa escala quantas vezes você ora em casa e frequenta reuniões religiosas ao longo de um mês. Com esses dados em mãos, eu poderia verificar se você é menos ou mais religioso do que a média da população brasileira.

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Enfim, essa é só uma amostra do que é feito nas pesquisas em PRE. Independentemente da existência ou inexistência de um mundo espiritual, nada impede que identifiquemos, mensuremos e analisemos estatisticamente diversos componentes daquilo que chamamos de “religiosidade” e “espiritualidade”.

Por outro lado…

2. Ainda não há um consenso científico sobre o que exatamente significam os termos “religiosidade” e, principalmente, “espiritualidade”

Por exemplo, Lindeman e seus colegas (2012) sugerem que a espiritualidade é a crença em seres espirituais, mas Pargament (1999) defende que isso se trata da busca pelo sagrado. Há até mesmo definições não religiosas (ou seculares) em jogo, tal como a ideia que o ateu Sam Harris propõe em seu livro “Despertar”. Inspirado no budismo, ele afirma que a vida espiritual envolve técnicas meditativas que nos fazem experimentar a eliminação do nosso senso de “eu” – o qual seria uma ilusão criada pelo cérebro.

Como eu já discuti detalhadamente em um vídeo do meu canal, a ideia da Lindeman é empiricamente mais defensável. Contudo, e de forma um pouco mais inclusiva, eu e meus colegas de pesquisa definimos o termo “espiritualidade” como o conjunto de experiências e comportamentos que giram em torno da crença em seres espirituais. Além de funcionar bem em contextos de pesquisa, esse conceito se articula satisfatoriamente com a noção um pouco mais consensual de que a religiosidade tem a ver com religião.

A religiosidade cristã, por exemplo, diz respeito a como os cristãos expressam a sua espiritualidade – ou, em outras palavras, as crenças e experiências e práticas cristãs compõem uma espiritualidade única, a qual se diferencia das espiritualidades espírita, budista e umbandista. Como eu concluí noutra ocasião, a crença em seres espirituais pode ser vista como a “alma” da espiritualidade, e a religiosidade seria só o “corpo” no qual essa alma eventualmente se encaixa. Mas nem todo mundo concorda comigo.

3. Os cientistas que investigam a religiosidade e a espiritualidade não estão tentando descobrir se seres sobrenaturais existem

Talvez isso tenha ficado implícito quando eu mencionei a primeira curiosidade, mas é bom reforçar que, independentemente de haver ou não haver uma realidade sobrenatural, nós estamos interessados em investigar os determinantes, as diferentes manifestações e as consequências da espiritualidade e da religiosidade. Nas nossas pesquisas, não é defendida nem contestada a existência de Deus, por exemplo – porque o foco não é esse. O que a gente quer descobrir é, por exemplo, se os evangélicos atribuem mais importância à sua religião do que os católicos; por que algumas pessoas se tornam ateias; ou se pessoas mais espiritualizadas tendem a ser mais felizes e a apresentar mais sentido de vida – e a resposta a esta última questão tende a ser positiva (e.g., Schnell, 2011; Stark & Maier, 2008).

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Falando nisso…

4. A religiosidade e a espiritualidade costumam interagir com inúmeras áreas da vida humana

Por exemplo, já foram realizados estudos que testaram a relação entre religiosidade e

  • Moralidade (Rabelo & Pilati, 2019);
  • Saúde mental (Gontijo, 2019);
  • Forma de criar os filhos (Mahoney, 2010);
  • Infidelidade (Tuttle & Davis, 2015);
  • Qualidade do sono (Hasan et al., 2017); e
  • Homofobia (McDermott et al., 2014; para ver um vídeo meu sobre esse assunto, clique aqui).

Recentemente, saiu um estudo muito interessante que constatou que pessoas mais religiosas eram mais propensas a acreditar em teorias da conspiração sobre o coronavírus (Freeman et al., 2020). A propósito, meus colegas e eu estamos sondando se existem diferenças entre religiosos e não religiosos a respeito de suas atitudes durante a pandemia, tais como usar máscara e fazer o isolamento social. Façam suas apostas.

Finalmente…

5. O estudante ou o pesquisador interessado em compreender cientificamente a religiosidade e a espiritualidade pode ser de qualquer religião — e, é claro, pode até mesmo ser uma pessoa que não segue nenhuma religião

Cientificamente falando, isso não interfere em nada – ou, pelo menos, não deveria interferir. Se quisermos saber, por exemplo, se os espíritas apresentam mais “experiências espirituais” do que os católicos e os evangélicos, o resultado da nossa investigação será o mesmo caso sejamos espíritas, católicos, evangélicos ou ateus. Nesse sentido, a PRE é metodologicamente neutra, ou objetiva, e é por isso que a nossa área é cheia de gente que tem ideias muito variadas sobre o mundo sobrenatural.

Por outro lado, isso não significa que as nossas descobertas não possam colocar em questão a veracidade de uma ou outra crença religiosa. Tal como os avanços de áreas como a Física e a Biologia até hoje importunam os teólogos (e.g., em vista das teorias do Big Bang e da evolução das espécies, respectivamente), os avanços da PRE têm começado a botar mais “lenha na fogueira” dos debates entre crentes e descrentes. Embora esse não seja o nosso propósito oficial, muitos de nós não resistimos à tentação de interpretar alguns dados à luz das nossas grandes questões existenciais.

E eu confesso: esse é um “pecado” que eu cometo de vez em quando lá no meu canal do YouTube.

Este texto foi originalmente publicado por Universo Racionalista. Leia o original aqui.

Nota:

  1. Eis um modo típico de se atribuir valores a uma escala como a mencionada previamente: “Discordo totalmente” = 1; “Discordo um pouco” = 2; “Nem discordo, nem concordo” = 3; “Concordo um pouco” = 4; e “Concordo totalmente” = 5. Assim, por exemplo, quanto mais uma pessoa assinalou que concorda com afirmações referentes à existência de seres sobrenaturais, maior seria o seu escore (i.e., a soma de todos os valores) nessa escala – e, portanto, maior seria a sua convicção (ou fé) de que esses seres existem.

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