"Sem pânico". (Créditos da imagem: Reprodução).

Vamos dar um passo adiante caros leitores. Tenham ou não ouvido falar de niilismo, fiquem tranquilos, o artigo adiante lhes dará uma nova perspectiva sobre esse movimento. Além dos já existentes movimentos niilistas, dos quais citarei alguns, irei introduzir um novo pensamento. Desta vez serei um pouco mais cruel e alguns spoilers serão dados, mas não se preocupem, pois eles não farão mal algum.

O niilismo

“É a desvalorização e a morte do sentido, a ausência de finalidade e de resposta ao porquê”. Se você gostar de um super resumo, esta frase pode sintetizar todo o movimento. Ser niilista é exatamente renegar o “porquê” das coisas, é não se importar com as respostas ou não procurar por elas. Mas para que possamos deixar as coisas mais alinhadas, vou descrever um pouco das 5 principais vertentes.

  •  Niilismo negativo: é basicamente a negação ao sofrimento do que é real. Neste tipo de niilismo, podemos nos aproximar muito das religiões. Com o mundo real cheio de sofrimentos, nega-se a existência terrena e cria-se o sobrenatural. “Se somos seres pequenos, nesta vida sem sentido, deve haver algo maior nos olhando. Assim podemos viver a vida com um caminho a trilhar”.
A negação do real, e o louvor as cabeças gigantes em Rick e Morty. (Créditos da imagem: Reprodução).
  • Niilismo reativo: aqui Deus está morto. O homem se volta para si, e torna-se sagrado. O “além” agora está no futuro, só serão redimidos aqueles que lutarem por redenção, sirva à sociedade, só a ciência poderá nos revelar a verdade. Neste caso o homem destrói a verdade sobrenatural, mas passa a cultuar o material. Poderíamos caricaturar como o “Capitalista burocrata”.
O conselho dos Ricks venera a si mesmo, em infinitas realidades, eles são uma nova seita. (Créditos da imagem: Reprodução).
  • Niilismo passivo: vai negando tudo de pouco em pouco. A vida ainda existe para si, mas de certa forma está morto. Tudo o que faz parece ser em vão; tudo que existe vai ruir, então por que fazer algo? Como um zumbi ainda perambula pela vida. É aquele que quer desaparecer passivamente, sem dramas, ou sofrimento.
Alcoólatra e decadente, a vida quase chega ao fim pelo seu próprio dono. (Créditos da imagem: Reprodução).
  • Niilismo ativo: “O homem é uma criação recente cujo fim talvez esteja próximo.” — Foucault. O máximo da negação é negar o próprio niilismo, é transcender além do “homem moderno” e procurar o próximo nível de percepção da realidade.
Após uma série de eventos, Rick não se importa de que não há sentido para nada, e passa a criar pequenas motivações diárias. (Créditos da imagem: Reprodução).
  • Absurdismo: apesar de não ser diretamente um movimento niilista, seus ponderamentos estão baseados nesta forma de pensar. No primeiro artigo da série falei um pouco de Camus, e sua obra sobre Sísifo. Em resumo este movimento trata de como os homens buscam sentido na vida, versus, o Universo sem qualquer razão para existir.
A família descobre outras realidades onde possuem vidas diferentes. Summer tenta dar um sentido a sua vida, pois ela poderia ter sido abortada. (Créditos da imagem: Reprodução).

A ignorância é uma bênção

Quantas vezes você já ouviu esse jargão? Sei que como eu, provavelmente você já se pôs a pensar sobre o quanto essa frase reflete a realidade. Por muito tempo achei, que de certa maneira, conhecer a fundo a realidade em que eu vivia, era a causa de tristeza e insatisfação com a vida. Nós somos seres angustiados em um mundo sem nenhum sentido, buscando incessantemente por metas, que muitas vezes não refletem o que queremos, nem quem somos.

Não é a toa que comecei a escrever sobre alguns temas relacionados a essa série. Existem tantas reflexões em níveis diferentes, que dela tirei novas filosofias de vida. E não foi Rick quem me fez olhar as coisas diferentes desta vez. Foi Jerry.

Não seja um Jerry

A personificação de como Beth vê Jerry. Medroso, burro e lerdo. (Créditos da imagem: Reprodução).

A ignorância só é uma bênção em um truque de mágica. Já imaginou ir há um show de mágica e saber como o truque é feito? A ignorância só se faz necessária em momentos que é preciso ser enganado para que o ato faça sentido, e a vida não é esse ato. Jerry é a maior prova disso. Inseguro, ciumento, publicitário sem criatividade, é o personagem central da ignorância no seriado, nos mostra que estamos fadados ao fracasso se não entendermos nosso Universo.

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Sei que você pode estar torcendo o nariz para isso, afinal se já assistiu o seriado, irá dizer que na maior parte do tempo Jerry está feliz. E você não está enganado, Jerry é o retrato exato do indivíduo que acha estar feliz. Sei que não existe a verdadeira ou a falsa felicidade, estar feliz é estar feliz. É então que o seriado se faz genial. Jerry é o exemplo mais contrário ao niilismo, sua ignorância não o permite se desprover de sentido, e é aí que está a diferença.

Com uma busca de significado para sua vida, Jerry leva suas atividades rotineiras como etapas para alcançar algo maior, e desta maneira se sente feliz, por imaginar estar trilhando o caminho certo para o que ele quer. Porém nada se pode alcançar através da ignorância, e aos poucos, seus desejos para o futuro vão sendo destruídos, e a realidade o alcança. Seus erros vão ficando evidentes e agora são inundados pela mais verdadeira tristeza. Toda a felicidade ao longo do caminho fica manchada pelo fato de ter sido em vão. O tempo gasto não pode ser reavido, o seu objetivo falhou, e uma profunda depressão o assola. O problema é que ele repete tudo novamente, e a cada decepção, o brio para tentar novamente vai se esvaindo, até que não haja nem mais felicidade na tentativa.

Há um pouco de Jerry nesta nova “geração das mídias sociais”. Há um pouco de Jerry na depressão. Há um pouco de Jerry na ansiedade do dia a dia. Liberte-se, seja menos Jerry e muito mais Rick…

O niilismo da sabedoria

“Me desculpe, mas sua opinião significa muito pouco para mim”. (Créditos da imagem: Reprodução).

Não, eu não inverti as palavras. O que eu vou lhes contar, não é sobre a sabedoria que há dentro do niilismo. Eu vou descrever algo que vi neste seriado, e que mudou minha forma de pensar. Como é possível transcender ao Jerry da vida comum e se tornar um Rick. O mais ávido praticante do Niilismo da sabedoria.

  • A felicidade como primeiro passo

Em algum momento todos nós nos perguntamos qual é o segredo da felicidade. De certa forma essa pergunta que parece ser tão difícil de responder, na verdade é fácil. Ao longo do tempo, a sociedade criou um anseio pela “felicidade estável”, que é a forma de descrever que a sua vida estaria perenemente feliz, que nada mudaria seu humor. Porém este sentimento é impossível ao ser humano, nós fomos condicionados através de filmes, redes sociais e socialmente a acreditar que a felicidade 24 horas por dia é possível. Mas nossa psique não permite tal.

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Nós somos seres ansiosos naturalmente, e de certo, isso não é de todo mal. É através da ânsia que somos capazes de modificar aquilo que nos aborrece, nós evoluímos pela “chateação”. A nossa capacidade de racionalizar não só sobre o mundo, mas principalmente sobre nós mesmos é o que faz de nós seres inquietos, e muitas vezes infelizes. Tendemos a projetar cenários no futuro, e nos inserimos neles como forma de planejar o caminho até lá. O problema é que a vida é absurdamente entrópica. A cada situação que acontece entre o momento da projeção até o dia do acontecimento, uma nova ordem de caos é adicionado a conta. E no fim, a maior possibilidade é que a projeção não se realize.

O segredo da felicidade é simplesmente saber equilibrar expectativas e realidades. Nada além disso. E é aí que o niilismo da sabedoria entra em ação.

  • Quanto mais conhecimento você adquire, mais livre você estará

Não é preciso assistir muito do seriado para que Rick já comece a lhe ensinar sobre como a sabedoria pode ser libertadora. Já no primeiro episódio, algumas falas dão o tom desta nova filosofia.

“Não há nenhum Deus Summer. É melhor acabar com isso logo, vai me agradecer depois.”

“As escolas são uma perda de tempo, gente correndo para cima e para baixo. Um cara na frente diz ‘2 + 2’, um outro no fundo responde ‘4’… Não é um lugar para gente inteligente, Jerry.”

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Em uma dimensão fantástica e diferente, Morty diz: “Tudo isso está me dando ansiedade”, e Rick responde: “Tudo bem, fique calmo. Escuta, Morty. Sei que as situações novas podem ser intimidantes. Você olha a sua volta e tudo é assustador e diferente, mas se você enfrentar isso, se for de cabeça como um touro, essas serão as coisas que nos farão crescer”. Mais a frente Morty volta a resmungar: “Quanto tempo falta? Eu não deveria já estar de volta ao colégio?” e Rick responde: “Você tá de brincadeira? Olha tudo isso a sua volta… Você acha que vai ver isso no seu colégio?”.

O lugar onde Rick e Morty estão, quando Morty quer voltar ao colégio. (Créditos da imagem: Reprodução).

Aos poucos começamos a entender que estamos limitados por aquilo que compreendemos. O Universo de Rick é infinito e por isso sua compreensão da vida e do que ela é, vai além das situações rotineiras e insignificantes. Como um peixe que, de dentro de seu aquário acredita conhecer tudo que existe, não sabe do oceano afora para desbravar. Cito aqui também a reflexão mais profunda feita por Carl Sagan: O Pálido Ponto Azul. Nós estamos presos àquilo que entendemos, quanto menor nosso conhecimento, menor será o aquário.

Liberte-se!

“Liberte o Rick”. (Créditos da imagem: Reprodução).

Com o andar do seriado entendemos o quanto Rick está tranquilo quanto a sua vida, ele não luta contra a infelicidade, ele a abraça e a entende. Mesmo com o tamanho da sua sabedoria, ele não consegue evitar que algumas decepções o atinjam, a diferença está em como ele reage a isso. Saber o quanto se é pequeno em relação ao Universo e o quanto aleatórios e imprevisíveis são os resultados te liberta. Decepções devem ser sentimentos rápidos e ligados unicamente a química automática do seu cérebro. Não faz sentido remoer situações, que no final, são puramente frutos do acaso. Ao contrário do que imaginamos, pouco podemos fazer para que algo se realize, em grande escala.

Indico a todos aqui um dos melhores livros que já li, O Andar do Bêbado. Livro que evidencia o quanto nossa estupidez de tentar encontrar padrões, ou de controlar o destino, nos faz ainda mais reféns da aleatoriedade.

E assim chegamos ao resultado final, que para mim, representa a mais bela e racional filosofia de vida. Não procuro viver igual ao Rick, existe muita inconsequência em seus atos, mas sempre podemos aprender com ele.

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O maior trunfo do niilismo da sabedoria é ser opositor a todas as outras filosofias de vida existentes. Não é preciso abandonar nada, não existem pregações, cultos, receitas prontas. É tudo um grande processo onde você aprende a compreender tudo que está a sua volta, e então passa a abraçar aquilo que existe. Coexistir e refletir, passa a ser um hábito natural, entendemos viver diante de uma imensidão e que no esquema das coisas somos completamente inertes. Abominamos um sentido único para uma vida caótica que parece não nos dar motivo para tal, mas vemos em cada ato da vida um novo motivo para estarmos vivos. Sabemos não sermos o centro das coisas e de que a nossa existência é uma mera efemeridade em um Universo que ainda jaz no completo desconhecido.

E o desconhecido é nosso mais forte combustível

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Inquisidor de dogmas, vive em uma realidade paralela onde não acredita em problemas insolúveis. Publicitário e astrônomo, também flertou com cursos de ética, fotografia, filosofia, biologia e sociologia. Acredita que currículos não descrevem ninguém, seu guia para a vida passa pelo O Andar do Bêbado, A Origem das Espécies e O Universo em uma Casca de Noz. Sua religião é a ciência e não se incomoda de ser um pregador. Sente-se atraído pelas novas formas de interagir, divulgar e viver no mundo on-line, descobriu que ali é seu lugar e pretende entender cada vez mais sobre esta forma de vida peculiar e tão atraente.

17 comentários

  1. Difícil achar algum texto trabalhado nessa internet contemporânea. Geralmente é um monte de coisa tirada de outro lugar que nem sequer é bibliografada. Enfim! Gostei do que li! Tenho meus próprios pensamentos sobre a série e o niilismo, mas gosto muito de ler os impactos em outras cabeças! Em geral, gera vários despertares. Obrigado!

    • Eae Gabriel, não entendi muito bem seu comentário. Você acho o texto pouco trabalhado e sem fontes ou os outros textos são assim e esse você achou bom…?
      Sempre bom o feedback, vlw!

      • Haaha, me entromentendo aqui, acho que ele achou esse bom, eincrementando um pouco: hoje em dia não vemos mais textos originais sobre algumas coisas, como esse seu, Luan.
        Obrigado, REALMENTE nos faz pensar.

  2. Muito bom o texto, mesmo eu discordando de várias partes, principalmente relativas a razão (não porque você esteja errado em dizer que a razão é o caminho, mas porque a filosofia é relativa para cada um) . Kierkegaard costumava dizer que a razão nunca traria a ninguém o sentido de viver, e deveriamos talvez apegar em algumas decisões e ignorar a razão se ela trouxesse alguma felicidade, e vejo isso completamente em minha vida. Quem dera eu ser ignorante suficiente como no passado, pelo menos não daria conta de como esse universo é depressivo, e o pior que nem mesmo o suicídio resolveria essa questão, é uma merda viver da razão. Acho que minha solução só lobotomia hehehe =/

    • Eae Henrique, acho que você não entendeu a relação do texto. O que eu digo é que não precisamos de razão para viver, e é através da compreensão completa da vida que é possível atingir isso. Tanto que dou o exemplo do Jerry e como ele da sentido a vida. O Niilismo da Sabedoria ultrapassa as agonias do saber profundo. Como no próprio texto eu descrevo que por muito tempo, acreditei que era a inteligencia que me fazia sofrer. Mas quando passamos deste estágio e abraçamos uma filosofia de vida que compreende o mundo, a sabedoria se mostra o maior dos apoios emocionais. Talvez você ainda não tenha tido esta epifania, kkkkk.

  3. Gostei muito do texto, me fez pensar sobre a série de uma forma que eu não havia pensado antes, meus parabéns ao autor!

  4. Eu me enquadro no niilista passivo. Fiquei assim depois da morte do meu pai e do meu irmão. Eu era ateu agnóstico, mas agora nada mais faz sentido. Estou perdido, acho que estou perto de ficar louco. É difícil conviver com esta dor esmagando o meu peito.

    • Eae Fábricio, cara fico triste por saber de sua situação, a pouco tempo perdi alguém que era muito importante pra mim. Passei por momentos em que nada fazia sentido e isto parecia me desmotivar e me fazer querer parar de viver. Mas o que eu vejo hoje é o oposto, a saudade nunca irá embora, mas o que deve permanecer são as coisas boas. Tente levar um pouco do texto consigo, entender que a vida é um ciclo e que se nos apegarmos as dores, nossa existencia terá sido em vão. Estamos aqui amigo, smepre que precisar de uma mão.

  5. Interessante texto, estou em uma crise existencial bem foda. Esse seriado tem ajudado em entender algumas coisas e seu texto fez o mesmo. Irônico ver que chegamos ao ponto de saber que nossa existência surgiu e vai desaparecer num período de tempo tão ínfimo em relação ao universo que chega dar um frio na barriga. Criamos consciência apenas para saber que não temos importância alguma nisso tudo. Esse é um dos pontos da minha crise existencial. Tem mais coisas, mais isso é o principal. Porém, esse niilismo é uma forma de reagir a essa situação. Uma forma de pensar que a existência em si não faz sentido, mas se estamos, vivendo, sentido e conseguindo raciocinar sobre esta situação, chego a conclusão de que a resposta é sentir o máximo de prazer possível. É gozar da vida e fazer seus receptores sensoriais absorverem as coisas tidas como prazerosas. Buscar conhecimento por si só te torna um Jerry, pois, com o que conhecemos hoje, já sabemos sobre nossa insignificância na sua totalidade. Mesmo que cheguemos a explorar outros planetas num futuro distante e conseguir de alguma forma, perpetuar nossa espécie (mesmo não fazendo sentido tal atitude), estaríamos fadados a sempre existente falta de sentido da existência de tudo isso aqui.

    Não sei o que é, não sei pra onde esse universo vai, talvez descubram os um dia, mas de fato, você pode reagir a isso chorando ou aproveitando sua passagem temporária por aqui.

    [off]

    Edu realmente acho que tudo isso aqui (a vida o universo e tudo mais) tem requintes de simulação. E que somos apenas resíduo disso. Não somos o objetivo da simulação em si. Talvez o que esse processo de explosões de estrelas fazem é geram são o resultado. No caso dessa nossa realidade conhecida, esse processo de explosões de estrelas que geram novos elementos químicos junto com outras coisas complexos geraram a gente de alguma forma. Ainda assim, batemos na mesma tecla, para que isso? De onde vem isso é qual o propósito de simular tudo isso? São perguntas infinitas.

    Bem, tomem café, comam chocolates e leiam livros 🙂 essas coisas são legais.

  6. Escreva sobre Bojack Horseman. É bastante interessante a questão existencialista contida na animação. Abraços!

  7. Luan, buscava compreender o niilismo e depois de ler vários textos me deparei com o seu. Objetivo, lúcido e esclarecedor, além de provocativo. Me identifiquei com niilismo de Rick, sem querer parecer presunçoso. Na última década, passei de mero espectador avesso à religião instituída e à religiosidade em si para um opositor ferrenho de seus impactos na oca e pouco efetiva formação dos valores [i]morais vigentes. Estou naquela fase na qual me sinto impelido a questionar todas as filosofias, mas sedento por conhecer uma que possa me definir. Enfim, sei texto me ajudou a reconhecer que não há filosofia que define quem chega a esse ponto, a não ser a sua própria filosofia tão peculiar quanto cada ser humano é. Acha que abstrai demais ou conclui que captei a essência do que tentou transmitir? Grande abraço e parabéns pelas sóbrias palavras.

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