(Créditos da imagem: Reprodução).

Parte de escrever sobre qualquer série ou filme necessita da cortesia do aviso sobre spoilers, e este artigo não lhe dará nenhum, mas há um porém: é impossível falar sobre algo sem sequer entender o contexto. Então se você não quer saber absolutamente nada sobre a série é hora de parar por aqui, mas se você já navegou pelas redes sociais, é óbvio que o contexto da série está mais que definido pra você. E se você estava em dúvida sobre assistir ou não a série, este artigo com certeza lhe fará decidir, mas não espere uma análise aqui, meu papel não é analisar a série, e sim ao que a série se refere. E, claro, vamos aos fatos…

F*ck society!

“‘Dane-se’ a sociedade”. (Créditos da imagem: Reprodução).

Uma pequena frase que resume perfeitamente a série, basta dizer que você será imerso no mundo hacker, sem glamour, sem Hollywood, tudo funciona como no mundo real. Elliot é o protagonista, viciado, antissocial, boas intenções e louco. Ao passar dos episódios suas facetas serão exibidas cada vez mais para fazer você, espectador, entender em que sociedade vivemos. Tudo é construído não para te colocar em um mundo criado, mas para te tirar dele, o fazer pensar, criar possibilidades paralelas possíveis se você ou alguém fizesse algo como o que acontece nesta “semi-ficção”.

Tiremos de lado as teorias conspiratórias apresentadas, já que você irá se deparar com elas logo na primeira frase da série: “Existe um grupo de pessoas poderosas que secretamente comandam o mundo, os caras que ninguém conhece… O top 1% do top 1%”.

Talvez exista alguma verdade em supor que podemos estar sendo “governados” por algo assim, afinal você já parou para pesquisar quanto as grandes corporações detém? Consumimos itens que muitas vezes parecem ser distintos entre si, acreditamos estar escolhendo algo entre milhões de coisas, e dando preferência àquilo que achamos compelir com nossos gostos. Achamos muito, sabemos pouco, essa é a verdade, e esse é o primeiro ponto. Mas este artigo será dividido em três partes, e esta primeira tem a ver com o quão frágeis nos tornamos em escala global e não como estamos assim individualmente.

A rede social artificial

Ao lado esquerdo: “a sua personalidade no Facebook”. Ao lado direito: “a sua personalidade real”. (Créditos da imagem: Reprodução).

Estamos cada vez mais imersos em um mundo que não é real, e se existia algo que Jobs sabia era isso. Nós e os devices nos tornamos um só, a internet colocou o mundo em nossas mãos mas, principalmente, nos deu algo que nunca tivemos: o centro das atenções. Ela nos ligou ao mundo, dando-nos importância, relevância, alcance e a maior das drogas: a personalidade perfeita.

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Mas quem é essa personalidade perfeita? Ela é você. Bom… Não exatamente você, mas seu alter ego, aquele que você quer ser, ou o que quer que os outros pensem que você é. E a psicologia sabe bem explicar o porquê disso: lhes apresento…

A caixa de Skinner

Você deve se perguntar às vezes porque o Facebook atingiu um sucesso tão maior do que as outras redes, e a resposta é simples: a curtida.

Burrhus Frederic Skinner, criador do experimento, disse que as consequências de uma ação podem lhe influenciar a repeti-las ou não. O que significa que estamos condicionados a repetir as coisas que nos parecem favoráveis.

E é exatamente aí que está a sacada de toda a genialidade: talvez você não saiba, mas Mark Zuckerberg não é só aquele geek da programação. Mark também é formado em psicologia por Harvard, e mesmo que um dia ele negasse por sua vida que em nada isso lhe influenciou, ainda colocaria em risco tudo para afirmar o contrário. As evidências mostram que sua maior descoberta foi perceber que a cada dia estamos mais distantes da realidade e cada vez mais carentes de algo que já possuíamos, a autoconfiança.

A curtida

O método “curtida” de agir se sucede desta maneira: todo usuário está online para ter atenção, para que seja cada vez mais visto e aprovado. A curtida funciona como a medida de atenção que você recebe, ou o quão certo você está sobre algo. Quanto maior a quantidade de curtidas, maior a chance da ação se repetir. Pois através de um reforço positivo o resultado emocional é positivo também. Mas se não recebermos muitas curtidas, a busca continua, porque na nossa mente não fomos reprovados, só não fomos aprovados — não há sentimento de desânimo. Lembre-se que somos seres em busca de aprovação em uma época onde estamos mais carentes. Não à toa, não há o botão “descurtir”.

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Democracia e Mr. Robot.
“A nossa democracia é pirateada”. (Créditos da imagem: Reprodução).

Esta é a sacada do milênio, e se não houver grandes anomalias sociais ela tende a se manter a mesma. A importância em entender isso, serve para entender o porquê de nossas vidas inteiras estarem conectadas à internet. Nos sentimos parte deste mundo virtual e deixamos tudo que é pessoal parar no mundo online. Não somente senhas do cartão do banco ou números de documentos pessoais, mas também onde você vai, quem são as pessoas ao seu lado, o que você faz e suas preferências. Não à toa, hoje primeiro stalkeamos alguém, depois puxamos assunto.

Para entender só mais um pouco do quanto fomos longe, um estudo publicou que temos somente 5 amigos de verdade nas redes sociais. E em quanto está a contagem deles para você?

Existem alguns números que mostram que mais de 28 milhões de pessoas se divorciaram citando o Facebook, enquanto outros falam que pelo menos 66% dos divórcios têm a rede social como causa primária — dados que são de alguns anos atrás.

Eu lhes entrego: paranoia!

“Todos vivemos na paranoia uns dos outros”. (Créditos da imagem: Reprodução).

Pronto para ficar paranoico? Comecemos, então.

Até que ponto você acredita estar seguro online?

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Achar que suas informações pertencem só a você vai além da inocência. A quantidade de vazamento de dados só vem aumentando, por dois motivos: existe cada vez mais informação sobre qualquer coisa online e os hackers são cada vez mais capazes de acessar essas informações. Se alguém lhe diz o contrário, sobre como você está seguro e suas informações estão criptografadas, esqueça – a segurança aumenta, mas a capacidade para burlá-la também.

Quer uns exemplos? 50 milhões de dados pessoaischamadas de call-center167 milhões de contas no LinkedInPanamá Papersdados bancáriossite de relacionamentos extraconjugais entre tantos outros que não caberiam por aqui.

O poder online é quase digno de quadrinhos de super-vilões, e posso listar abaixo alguns destes poderes:

  • Explodir a bateria do seu Macbook. Aparentemente a Apple não achou necessário uma proteção maior para os chips que controlam a bateria, deixando senhas iguais para todos os Macs e o processo para invasão é bem simples.
  • Acessar sua webcam. Se você tem uma câmera apontada para você neste momento ela facilmente pode estar ligada e você fazer parte de um reality sombrio de um hacker psicótico. Acredite, até o Mark tem medo disso, repare na foto abaixo.
(Créditos da imagem: Reprodução).
  • Controlar o freio do seu carro. Aliás, seu carro todo, se você tem um desses carros com computador de bordo que possua wi-fi, ou que esteja ligado à rádio até que um simples vírus advindo de uma música baixada na internet possa infectar todo o veículo, ou mesmo pelo bluetooth. Acredite, se alguém quiser invadi-lo, ele poderá.

Quer “noiar” um pouco mais, assista ao vídeo abaixo, e depois iremos à conclusão.

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Os hackers são os “videntes” da era moderna.

Nesta via de mão dupla, onde o acesso é fácil, certamente não estamos seguros. E mais que isso, o nosso comportamento no presente não tem ajudado.

Esteja sempre alerta

É aconselhável refletir sobre o quanto e como estamos nos colocando online. Rever quais podem ser as consequências disto. Não é preciso entender de psicologia, nem de estatísticas, é preciso entender de nós e da maneira como agimos. Algo que parece cada vez ter menos explicação e menos atenção. Passamos a viver além do que somos e colocamos cada vez mais máscaras para nos transformar. Criamos uma densa névoa entre o pessoal e o público, pouco colocamos limites entre um e outro, e assim damos liberdade para que nada esteja definido, tanto para nós quanto a qualquer um.

Assim como escrevi há um tempo atrás sobre nossa fragilidade no mundo físico, sob a possibilidade de uma invasão biótica que seria mortal para toda humanidade. Hoje vejo o mundo virtual da mesma maneira. Estamos espalhando doenças psicossomáticas através deste meio sem sequer percebermos.

Já aproveito para falar das outras duas continuações: a parte dois tratará de outra faceta, aquela brevemente descrita nos primeiros parágrafos, a nossa compulsão consumista. E a terceira parte é exatamente sobre nosso comportamento social online.

Bem, no início eu disse que talvez você quisesse assistir ou não à série, e se você se intrigou pelo assunto saiba que este é apenas um deles a ser destilado pelo programa.

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A terceira temporada já está para estrear, e espero que até o final dela, as três partes estejam prontas. Quem sabe podemos estender esta série aqui, e fazer mais do que três partes…

Referências:

  1. PRESSE, France. “Turquia investiga vazamento de dados de 50 milhões de pessoas”; Globo. Acesso em: 06 set. 2017.
  2. ROHR, Altieres; GOMES, Helton Simões. “Vazamentos expõem milhões de chamadas de call center”; Globo. Acesso em: 06 set. 2017.
  3. ALECRIM, Emerson. “Mude de senha no LinkedIn: dados de 167 milhões de contas vazaram”; Tecnoblog. Acesso em: 06 set. 2017.
  4. MORAES, Camila. “Vazamento de dados sobre paraísos fiscais expõe envolvidos na Lava Jato”; El País. Acesso em: 06 set. 2017.
  5. LOUREIRO, Rodrigo. “Plugin de segurança dos bancos permite vazamento de dados dos internautas”; Olhar Digital. Acesso em: 06 set. 2017.
  6. PRADO, Jean. “Suicídio, extorsões, desemprego: as consequências do vazamento de dados do Ashley Madison”; Tecnoblog. Acesso em: 06 set. 2017.
  7. SHARPE, Katharine. “How many friends do you really have? People are only capable of maintaining FIVE close friends despite using social media”; Daily Mail. Acesso em: 06 set. 2017.
  8. HARRÉ, Michael S.; PROKOPENKO, Mikhail. “The social brain: scale-invariant layering of Erdős–Rényi networks in small-scale human societies”; The Royal Society Publishing. Acesso em: 06 set. 2017.
  9. DN. “Número de divórcios causados pelo Facebook já chega aos 28 milhões”. Acesso em: 06 set. 2017.
  10. Época Negócios. “Um em cada cinco divórcios envolve Facebook nos Estados Unidos”. Acesso em: 06 set. 2017.
  11. OLIVEIRA, André Jorge. “‘Hackeamento de webcam é mais comum do que imaginam’, diz analista”; Revista Galileu. Acesso em: 06 set. 2017.
  12. EPAMINONDAS, Felipe. “Skinner e a descoberta do condicionamento operante”; ScienceBlogs. Acesso em: 06 set. 2017.
  13. Wikipédia. “Doença psicossomática”. Acesso em: 06 set. 2017.

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