A tecnologia de laser conhecida como LiDAR remove digitalmente o dossel da floresta para revelar as ruínas antigas abaixo, mostrando que as cidades maias, como a Tikal, eram muito maiores que as pesquisas em terra sugeriam. (Créditos da imagem: Wild Blue Media/National Geographic).

Uma enorme expansão da civilização maia surge de debaixo da mata com o uso de uma nova tecnologia.

Uma pesquisa aérea recente revelou milhares de antigas estruturas maias escondidas sob a densa selva guatemalteca, incluindo casas, canais de irrigação, fortificações e até mesmo uma pirâmide. Mais importante ainda: a pesquisa de dois mil quilômetros quadrados no nordeste da Guatemala oferece uma visão panorâmica da paisagem das antigas cidades, fazendas e rodovias maias. Essa ampla visão vai permitir que os arqueólogos façam perguntas mais abrangentes sobre essa civilização ainda enigmática.

Um senso de mistério ainda envolve os maias, principalmente porque grande parte de sua sociedade, uma vez poderosa e sofisticada, agora está escondida debaixo de uma densa folhagem tropical. Nos últimos anos, os arqueólogos começaram a usar lasers para contemplar a espessa cobertura de folhas e mapear a antiga paisagem maia de cima. Eles estão usando uma tecnologia chamada “detecção e ampliação da luz”, ou LiDAR, na sigla em inglês, que mapeia do alto os recursos no solo, medindo quanto tempo leva a luz infravermelha irradiada de um plano para chegar até o alvo, rebater nessas estruturas e retornar ao instrumento.

Com o uso de avião, os pesquisadores cobrem muito terreno em pouco tempo, e uma pesquisa recente abrangeu a maior área até agora. Os resultados sugerem que a civilização maia pode ter sido mais extensa e mais densamente povoada do que os arqueólogos perceberam. A pesquisa, financiada pela Fundação Pacunam sem fins lucrativos, cobriu dois mil quilômetros quadrados do noroeste da Guatemala em 2016. Os arqueólogos têm estado observando os dados desde o início de 2017 e dizem que descobriram mais de 60 mil novas estruturas, desde canais de irrigação e rodovias até fortalezas e pirâmides.

Pesquisadores com LiDAR aéreo mapearam 10 partes da Reserva da Biosfera Maia na Guatemala. As descobertas revelam uma rede de cidades maias. (Créditos da imagem: Soren Walljasper).

É a escala da pesquisa, não a densidade dos achados, que deixa os arqueólogos tão animados. A pesquisa fornece uma visão na antiga paisagem maia de maneiras que eram impossíveis até recentemente.

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Rede maia

E isso permite aos arqueólogos fazer grandes questões sobre populações antigas, economias e sustentabilidade agrícola. Por exemplo, nos vales pantanosos em torno da antiga cidade de Holmul, perto da fronteira moderna com Belize, as imagens LiDAR mostraram milhares de hectares de sistemas de canais em grade que descrevem blocos de terra.

“Essas características são tão extensas que nos faz começar a se perguntar: este é o celeiro das terras baixas da civilização maia?”, disse o arqueólogo Tom Garrison do Ithaca College, cuja equipe está trabalhando com os dados da pesquisa. “Isso foi onde eles cultivavam e cresciam tanto… Será que talvez eles estivessem construindo uma economia em torno disso? Porque onde eu trabalho, perto de Tikal, temos esses recursos, mas eles estão em blocos menores”.

Mapeando nesta escala, os arqueólogos consideram como os antigos maias apoiaram uma população tão grande e como cidades como Tikal e Holmul estavam ligadas economicamente.

Hoje, as antigas terras agrícolas encontram-se em pouso em uma região dominada por uma agricultura destrutiva de corte e queima. Mas se os maias já mantinham vários milhões de pessoas cultivando este terreno pantanoso, agora os arqueólogos querem saber como. As grandes questões, que os arqueólogos no campo vão passar nos próximos anos tentando responder, incluem exatamente o que os maias cultivavam em seus campos de irrigação e como eles fertilizaram o inóspito solo pantanoso em torno de Holmul.

Uma antiga fortaleza

A antiga cidade de Tikal, a oeste de Holmul, agora parece muito maior do que os arqueólogos haviam percebido. As paredes defensivas em torno de Tikal foram descobertas pela primeira vez na década de 1960, mas de acordo com os novos dados da pesquisa, essas fortificações são mais extensas do que se pensava anteriormente.

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Panorama do terreno onde se situavam os Maias. Varreduras de laser revelam mais de 60 mil estruturas maias desconhecidas que eram parte de um vasto sistema de cidades conectadas, fortificações, fazendas e estradas. (Créditos da imagem: Wild Blue Media/National Geographic).

“O LiDAR revelou esse grande trabalho de terra em uma maneira muito mais abrangente do que antes, incluindo áreas em que equipes de pesquisadores anteriores talvez pensassem que não havia parede”, disse Garrison. Em alguns lugares, a drenagem de água desgastou os muros de terraplanagem até restar apenas uma subida tão sutil que você não conseguiria vê-los, mesmo que estivesse de pé ao lado dele, mas que são claramente visíveis do alto com o LiDAR.

“Houve evidência substancial de guerra na área maia. Mas as fortificações que eles encontraram são surpreendentes. Essas descobertas serão contribuições significativas para o estudo da guerra maia”, disse o arqueólogo Takeshi Inomata, da Universidade do Arizona, comentando os resultados da pesquisa. “As interpretações específicas dependerão das datas desses sites e seus contextos sociais, que precisam ser estudados através de escavações”.

Garrison e sua equipe estão planejando fazer exatamente isso. Eles já passaram uma temporada em campo, e ele diz que eles estão planejando retornar para escavações mais profundas nos movimentos de terra de Tikal.

Sujando as mãos

Mesmo com a boa qualidade dos dados remotos, os arqueólogos têm que fazer o que é chamado de levantamento de dados em campo: com isso, certifica-se que o que eles pensam ver nas imagens LiDAR coincide com o que realmente acontece no chão. E eles também têm que sujar as mãos para estudar os tipos de detalhes que não aparecem do ar: coisas como a idade de um edifício e quando foi usado.

Olhar para a imagem LiDAR é como olhar para 2.500 anos de mudanças, que foram movendo as ocupações humanas e agora todas essas mudanças estão comprimidas em uma única imagem. As imagens mostram 30 ou 40 estruturas por quilômetro quadrado, mas essas estruturas não foram todas construídas ou usadas ao mesmo tempo. Uma das grandes tarefas enfrentadas pelos arqueólogos estudiosos da civilização maia agora é descobrir quando os edifícios, fortificações e canais foram usados. Isso terá implicações importantes para descobrir quantas pessoas viveram nas terras baixas maias em um determinado momento.

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Quatorze dos arqueólogos que receberam os dados do projeto dizem que estão planejando enviar um artigo a um periódico nas próximas semanas descrevendo o trabalho de campo que eles fizeram em resposta às imagens. Mas antes do artigo, eles compartilham algumas de suas descobertas com o público em um programa do canal National Geographic (Tesouros Perdidos dos Maias, que estreia em 17 de fevereiro, às 21h, no canal National Geographic), o qual inclui imagens tanto da pesquisa de 2016 quanto da temporada de campo de 2017.

LiDAR ganha terreno

Esta é uma das maiores pesquisas arqueológicas utilizando a tecnologia LiDAR até o momento, mas não é a primeira. Em 2009 e 2010, os arqueólogos Arlen e Diane Chase foram pioneiros na técnica em Belize. E até agora, Richard D. Hansen, diretor do Mirador Basin Project no nordeste da Guatemala, e seus colegas mapearam 750 quilômetros quadrados das maiores cidades maias da bacia Mirador-Calakmul, que os arqueólogos pensam ser a casa original do Reino da Serpente. Eles planejam continuar os levantamentos com LiDAR já em março de 2018.

Escondido nas profundezas da floresta, a recém descoberta pirâmide tem cerca de sete andares, mas é quase invisível a olho nu. (Créditos da imagem: Wild Blue Media/National Geographic).

“O LiDAR está revolucionando a arqueologia da maneira como o Telescópio Espacial Hubble revolucionou a astronomia”, disse Francisco Estrada-Belli, arqueólogo da Universidade de Tulane à National Geographic. “Precisamos de cem anos para passar por todos [os dados] e realmente entender o que estamos vendo”.

O olho nu vê apenas a selva e um pequeno monte coberto, mas o LiDAR e o software de realidade aumentada revelam uma antiga pirâmide maia. (Créditos da imagem: Wild Blue Media/National Geographic).

“Nós gastamos mais de US$1 milhão e 15 anos no mapeamento de [52 quilômetros quadrados] da Bacia do Mirador com sofisticados sistemas de mapeamento a laser de estação total, e nossos dados LiDAR ultrapassaram rapidamente essa pesquisa de forma exponencial com 38 horas de voos”, disse Hansen.

À medida que mais arqueólogos maia começam a usar o LiDAR, a Fundação Pacunam espera incentivar os pesquisadores da Guatemala, México, Belize e Honduras a compartilharem os dados da pesquisa. Hansen, que ajudou a fundar a Pacunam, diz que sua equipe planeja contribuir. Enquanto isso, os voos da pesquisa Pacunam até agora cobriram apenas um décimo dos 20 mil hectares que a fundação quer mapear nos próximos anos. Mas, à medida que a tecnologia lança uma nova luz sobre a paisagem maia, ela ilumina tantas questões como respostas sobre as pessoas que já viveram aqui.

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“O que é emocionante sobre esta tecnologia é que nos diz mais sobre a [cultura maia] do que já conhecemos, mas também deixa algo desse mistério para nós: coisas que não podemos explicar totalmente que precisam ser pesquisadas”, Disse Garrison.

Adaptado de Kiona N. Smith para a Ars Technica.

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